1983

 

Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista

Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Alhambra, Rio de Janeiro, 1983
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Livro

Extrato

Capítulo III - Neurose - Esvaziamento do Presente

Por que vivenciar a realidade, o outro, eu mesma enquanto representação (distorção, símbolo) é mais comum, mais frequente?

Koffka, na página 17 de seu livro The Growth of the Mind - an introduction to child psychology, editado por Littlefield, Adams & Co., ao comentar os métodos objetivos de experimentação dos behavioristas, diz: "Se alguém tem apenas a capacidade de dar tais respostas como os outros possam observar, ninguém seria capaz de observar nada". Ponto crucial, confronto entre objetividade-subjetividade, dois lados da mesma moeda, que se antagonizam com o conceito de vivência (Erlebnis, de Husserl). O comportamento humano é uma expressão da vivência relacional do ser humano consigo mesmo, e/ou com o outro, e/ou com o mundo e/ou com seu contexto, estruturado em um espaço cultural, social, geográfico e em um tempo: passado, presente ou futuro. Este embaralhamento, sincronização ou desincronização, organiza-se por uma trajetória dada pelo outro, que é o semelhante ou o dessemelhante (ser humano, animal, planta, conjuntura ou objeto).

Coloquemos tudo entre parênteses e vejamos a trajetória, a relação. Aí chegando temos uma figura que é estruturada por um fundo: a motivação. Todo comportamento humano expressa uma motivação. Motivo é o que dirige, desperta e mantém o comportamento. Os motivos são extrínsecos ou intrínsecos às relações vivenciadas, podem ser aqui-agora, ali-antes, além-depois. Entender e apreender as motivações humanas são os objetivos do psicoterapeuta gestaltista, a fim de psicoterapicamente dimensioná-las, estruturando individualidades.

Presentificadas, as motivações são as possibilidades orientadoras e demarcadoras de nosso comportamento/relacionamento. Estruturadas enquanto passado, as motivações se transformam nos códigos, padrões de comportamento, os a priori, que regulam nosso comportamento, são prévios congeladores, estagnizadores do estar-com-o-outro-agora-aqui-no-mundo. Desencadeados pelas aspirações, metas, os motivos passam a ser os faróis balizadores de nosso comportamento, funcionando como imãs polarizantes e esvaziadores do presente. Passamos, corremos pelo dia-a-dia, pelo cotidiano a fim de chegar ao lugar postulado como nirvânico.

Demos um contexto, um fundo que torna mais inteligível a frase de Koffka: "Se alguém tem apenas a capacidade de dar tais respostas como os outros possam observar, ninguém seria capaz de observar nada".

Nós podemos observar, descrever as forças, os constituintes da relação, mas nunca a relação que os configura, a relação que se estabelece, que se vivencia. Lembrando Husserl, diríamos que a vivência é a Wesenchau do humano. A essência do ser humano é relacional. A relação é a dinâmica, a trajetória motivac ional, individualizada ou desindividualizada, humanizada ou desumanizada (coisificada = reificada). E, por que vivenciar a realidade, o outro, eu mesma enquanto representação, distorção, símbolo é mais comum? O ser humano existe em um tempo e em um espaço. A temporalidade é a dimensão processual e dinâmica do humano, tanto quanto a espacialidade o é. O corpo, o organismo, é o móvel situado em um plano (mundo, sociedade, cultura, família) que por acão de forças contextuais nele se desloca, se movimenta. Acontece que este corpo, este organismo, se auto-regula, discrimina sua trajetória mantendo-a ou modificando-a graças às relações discriminatórias que estabelece com seus contextuadores seu plano, seu espaço. Tem uma autonomia que é dada pela vivência de seus limites ou de suas dependências, faltando-lhe a referida quando ignora seus limites, realizando apenas os movimentos a ele possibilitados. Perceber o limite, discriminar os referenciais que o constituem, destaca-o de seu mundo, individualizando-o, estruturando seus caminhos de ação, suas motivações de vida. Ao caminhar e refletir sobre isto, ao perceber sua trajetória, ele integra a continuidade, a temporalidade, já não é mais um simples alvo de forças, resultado da ação das mesmas. O movimento de estar se deslocando em um plano, espaço, pode graficamente ser representado:

 

 





A percepção de seus limites, é graficamente configurada:




Ao integrar seus limites, ele se temporaliza:




A interseção das relações espaciais com as temporais estrutura planos que passam a ser situantes do ser-no-mundo podendo assim ser balizadores do mesmo. Novos deslocamentos, novos interesses, novas interseções, novos planos, nesta dinâmica as situações começam a se repetir, ganhando pregnância a representação das ações, dos comportamentos. Perceber isto, com isto se relacionar, procurar direções possibilitadoras ou convergências mantenedoras, é uma vivência constante. Esta continuidade de vivências espacializa o tempo através da memória e do pensamento. A percepção é extrapolada e/ou esclerosada. O processo vira meio, passando a ser ponte, laço de união entre eu e o outro, eu e o mundo. Perceber é conhecer e relacionar-se com o existente, é qualificar, colorir o fenômeno, o que está se dando: em mim, no outro, no mundo. Categorizar o percebido, dele me apossar, através dele me autodeterminar e regular, estrutura caminhos, direções, residuos perceptivos, espacialização do presente, através da memória. Passamos a saber, extrapolação do conhecer pois que é um referencial situado de vivências, relacionamentos e configurações: sabemos, experimentamos, temos um contexto, um fundo que vai nos possibilitar/impossibilitar as percepções. Já temos marcas (engramas) responsáveis por direções e caminhos. A novidade, a complexidade, a closura, a pregnância do mundo, do outro, do presente, fica esmagada ou involucrada, embalada por este fundo. A memória preside, induz e orienta nossa vivência do presente. O pensamento, que é a criatividade, o prolongamento perceptivo, vira, via de regra, um prolongamento mneumônico, pois que a percepção existe em função do referencial/fundo da memória.

Momento sério e grave, caótico na existência humana: o presente passa a ser um vazio, lacuna que serve de contexto às vivências humanas. Sempre estamos vivendo em um presente, muito embora nem sempre estejamos vivenciando o presente.

Este vazio temporal responsável pela pregnância do passado (medos, acertos, experiências, verdades, mentiras) ou pela pregnância de futuro (metas, desejos, ambições, etc.) nos transforma em móvel submetido à ação da inércia; perdemos nossa autonomia, somos o que os outros nos permitem ser, através de seus sistemas, suas regras, suas leis. Passamos a vivenciar no presente a representação de nós próprios (nossos desejos, ilusões, anseios, medos, expectativas), a representação do mundo, da sociedade, da cultura: seus slogans e regras de como fazer. Cabe-nos apenas distorcer a realidade, ser neurótico.

Distorcemos a realidade, passamos a vivenciá-la, ao outro e a nós próprios como representação, como símbolo. É a aderência, a contingência, o valor. O atributo transforma-se no substantivo, e assim o substantivo, o sujeito, vira atributo, apêndice de um sistema valorativo, onde o homem vale pelo que aparenta, pelo que tem, pelo que representa enquanto produtividade, cultura, sabedoria, dinheiro. Esta alienação possibilita a homogeneização necessária para transformá-lo em porta-voz e baluarte de sistemas despersonalizadores. É a neurose. O comportamento passa a ser motivado pela sabedoria adquirida (memória): manter o que conseguiu, evitar o que obstaculiza e é motivado também pelos anseios de atingir aquilo que vai realizar, justificar, salvar a própria vida (pensamento): filhos, patrimônio, pátria, ciência, religião, ideologia, conseguir um prêmio nobel, etc.

Esta alienação, coisificação resultante de não vivenciar o presente a não ser como vazio, contexto das representações do real, do outro e de mim, exilam a motivação, a alegria, o amor, do cotidiano do ser humano, pois se todo comportamento é motivado e se a situação é motivante à medida que é nova, complexa, pregnante e impõe um fechamento, uma closura - criando uma sensação de tarefa interrompida - coisa a realizar, vemos que no vazio existe homogeneização, não existem sinalizações, falta complexidade, impasses e consequentemente nada é novo, tudo está completo e acabado.

Acontece que todo comportamento é motivado, daí que utilizamos o vazio do presente como ponte entre o futuro e o passado. Preconceitos, hábitos (passado) e metas, aspirações (futuro) transformam a repetição, a homogeneização em novidade; o acerto, o erro viram complexidade a ser mantida ou evitada; a sabedoria, a experiência da existência tornam-se a complementação e realização de tarefas, o que muitas vezes angustia, deixando como pregnante a motivação em salvar a própria pele, continuar sendo o que eu tenho conseguido ser. Neste processo o ser humano perde o que o caracteriza e define como humano: o questionamento resultante do diálogo que ele estabelece com o seu presente. Perdendo este questionamento, ele se coisifica, segue a corrente, desindividualizando-se em função de seu contexto.

Os sistemas sociais, políticos e econômicos, na busca de manutenção de seus postulados e aderências valorativas, sempre buscam neutralizar as antíteses por eles geradas, daí que seus pontos chaves, seus baluartes - a educação, o trabalho, a família, a moral, a ciência, a filosofia, a religião - procurem sedar, aplacar, evitar questionamentos à sua própria estruturação; entretanto, como o todo não é a soma das partes, sempre surge alguma dimensão presentificada, representada por indivíduos que iniciam os questionamentos, as antíteses. Esta dialética, este atrito, fagulhas de presente, energiza o humano para vislumbrar saídas, embora minimizadas pelo esmagamento fragmentador causado pelo atrito, pela opressão. Surge nova escola, nova proposta de trabalho, nova moral, questionamentos às verdades filosóficas, morais e religiosas milenares. Surge a marginalização, os anti-sistemas, é antítese, mas não é mudança, pois a preocupação ainda não é por individualização, mas por melhores condições de vida, por mais espaço, e aí a massificação, a despersonalização permanece, pois o homem, não tendo integrado o outro, seu principal limite, não tendo integrado seus limites biológicos, permanece afastado de sua temporalidade enquanto presente, espacializando-se, dedicando-se a vencer os obstáculos de seu-estar-no-mundo, em vez de transcendê-los, transformando-os.

Uma escola, uma família, uma sociedade que baseassem as suas estruturas no relacionamento questionante e presentificado daquilo que é transmitido, levariam a uma integração da temporalidade. A presentificação abriria novos caminhos nos emaranhados dos sistemas. Haveria diferenciação na homogeneização do presente esvaziado. O mesmo ocorreria enquanto relacionamento humano. Estar-com-o-outro-aqui-e-agora seria revitalizador, era a maneira de ressuscitar a coisa agarrada a outra-coisa-que-me-segurou-antes-e-vai-me-apoiar-me-aceitando-sempre.

Outro aspecto muito importante é o da comunicação enquanto linguagem. A palavra é um instrumento forjado pela cultura. Assim formalizada a linguagem informa mais do que expressa. Representa mais do que apresenta, sendo por gênese alienante. É um símbolo que unifica, quando já decorre de divisão e somatório de vivências. Nomear alguma coisa ou situação é expressar um significado relacional apreendido, tanto quanto cunhar uma fôrma para infinitamente reproduzi-lo, descaracterizando-o de seus constituintes básicos; em filosofia, como visão do mundo, isto é muito enfático ao estudarmos conceituações feitas em outra cultura, outra língua. O significado coloquial, individualizado da palavra é uma busca de individualizações, daí os jargões, a gíria, os usos semanticamente deslocativos da palavra, os neologismos constantes na linguagem das crianças, no início da aquisição da mesma, as palavras especiais e individualizadas dos amantes quando, entre si, designam o cotidiano, os outros, a si mesmos. Com a espacialização do tempo esta busca também se coisifica.

O convencional, o modal, o quantitativo sublevam a essência, a qualidade, a autenticidade, o homem-no-mundo é substituido pelo mundo-do-homem. Esta particularização, parcialização, também desindividualiza. "Cada cabeça é um mundo", é sábio, experiente, mas não é globalizador do fenômeno humano, basta um relacionamento entre duas cabeças, dois mundos, para ser destruido este axioma basilar de nossa cultura e, por incrível que pareça, de nossa dita ciência psicológica.

Temos agora contexto (fundo) para amplamente responder à pergunta (figura): por que vivenciar a realidade, o outro, eu mesma, enquanto representação (distorção, símbolo) é o mais comum?

Podemos entender que a vida do ser humano é feita através de ilusões (símbolo, linguagem, dinheiro, valores, etc., etc., etc.), a própria sensação de imortalidade, o querer ter filhos para se continuar, para ter alguém que cuide de mim quando eu envelhecer, quando eu adoecer e não o querer ter filhos para colocar um ser no mundo, para recriar em sua dimensão individualizada o universo. A não vivência dos limites existenciais é a ilusão, é a neurose. A vivência humana, como representação da realidade, devido à não presentificação, deixa-nos claro que a ilusão é a matéria-prima do humano. Basta pensar nas eternas relações desencontradas entre homem e mulher, amigos, pais e filhos, etc., nas religiões; nas ideologias; no morrer pela pátria; no trabalho de recuperação existencial; na ajuda psicológica.

Quando o ser humano está presentificado, unitariamente estruturado, ele adquire consistência, ele não tem ilusões, ele tem crenças que são decorrentes de descobertas, encontros, confiança, participação no mundo, com o outro e consigo mesmo. O amor pode ser uma ilusão, quando meta, necessidade; é uma crença, uma vivência significativa quando decorrente do encontro entre duas individualidades, daí serem completamente estranhos e alheios ao amor os cúmes, traições, omissões, etc., típicos dos referenciais de ilusão de neurose. [pags. 38 a 45]


Capítulo IV
Motivação e Alienação

 

Já vimos que o motivo é o que desperta, mantém e dirige o comportamento, tanto que as motivações quando presentificadas são as possibilidades orientadoras e demarcadoras de nosso comportamento/relacionamento. Não esqueçamos que ao vivenciar o presente como vazio, o ser humano perde o que o caracteriza e define como humano: o questionamento resultante do diálogo que ele estabelece com o seu presente. Perdendo este questionamento, ele se coisifica, segue a corrente, desindividualizando-se em função de seu contexto - é a alienação.

Estar motivado é participar integralmente do que está aqui e agora comigo, é presença, é presente. Na neurose, isto é, na vivência do presente através dos filtros distorcedores, representados pelas metas e pelos a priori, a motivação não é uma participação, pois que é uma necessidade engatilhada através de esquemas, é o automático-desumanizador que utilizamos para fazer frente às demandas contextuais alienantes. Não há diálogo, não há questionamento, apenas obedecemos ou desobedecemos a ordens, apelos, exigências. Estabelecendo o diálogo com os outros, com o mundo e comigo mesmo, situo-me, enquanto possibilidade de relacionamento, ser-no-mundo autodeterminado em relação aos limites e transcendências situacionais, relacionais.

Penso, ao prolongar minha percepção, como continuidade do diálogo existente entre mim e a realidade; decido, quero, não quero, desejo, concordo, discordo. Autodetermino-me em relação às variáveis circunstanciais e estruturais. Sou, com condição de fazer e ter, ao exercer as minhas possibilidades humanas, de ser, neste diálogo onde respondo e pergunto. Sem o diálogo, sem o outro, o interlocutor, não há perguntas, nem respostas. Existem dogmas, regras, esquemas que necessitam ser atendidos. Neste reino de necessidades e contingências estrutura-se a alienação como matéria-prima residual da despersonalização humana. Este aproveitamento do que antes fora humano realiza-se em uma aparência de vida, de humano, para o que já está desvitalizado. É o ajuste social e biológico conseguido pela deglutição autofágica das possibilidades existenciais. Deixo de existir, sobrevivo seguramente apoiada em padrões que me permitem o direito de sobreviver. Luypen, fenomenólogo holandês, já dizia: "Quando se trata de direito, não há legitimidade."

Ninguém vai discutir se temos o direito de ter os nossos próprios olhos, as nossas próprias mãos; eles são intrínsecos, legitimamente nossos, mas pode se discutir sobre o como fazer com nossas aderências: deixar o carro em um local de estacionamento proibido, usar qualquer tipo de roupa, etc. Dentro da massificação e distorção perceptiva, as aderências se transformam em constituintes intrínsecos do ser humano; exemplo: eu sou o que eu represento - meu carro. meu status, minha profissão, minha conta bancária me definem e situam, autorizando-me a ser-com-os-outros. Esta distorção provoca a alienação, esvaziando o presente, substituindo o outro como constituinte de mim, ao figurá-lo através dos padrões, das regras, do sistema.


No nível de sobrevivência, de alienação, neurose e coisificação do humano, os sinalizadores, os motivadores de nosso comportamento são as nossas necessidades construidas pelo armazenamento de experiências, exigências, que buscam solução através de configurações previamente postuladas. Estes a priori dirigidos às metas são esvaziadores do presente e desestruturadores das possibilidades humanas. O homem assim constituido é apenas um organismo biológico dentro de um sistema social [4]. É um corpo no espaço, dinamizado pelos seus ciclos fisiológicos e aplacado, sedado, explicado pelos seus rotuladores sociais. Perdeu sua humanidade, desindividualizou-se, ficou sem autonomia, pois deixou de estabelecer o diálogo, exercer o questionamento, vivenciar o presente, ser-no-mundo-com-os-outros.

Por que ele faz isto? Ou por que acontece isto?

Homogeneizações contextuais e relacionais levam às representações, às simbolizações usurpadoras da realidade, ele só percebe o que está diante dele, o que não é ele. Esgotando-se nesta relação, através de seu auto-referenciamento convergente, ponto polarizador de tudo que o cerca, ele se despersonaliza, ficando com um acúmulo justaposto de vivências e relacionamentos onde falta um centro, uma autonomia, uma individualidade resultante da percepção de que eu-sou-com-o-outro-aqui-e-agora. Esta alienação de suas possibilidades existenciais foi o preço pago pela ilusão de garantia e segurança que é dada pelo fato de estar apoiado nos grupos majoritários e determinantes dos sistemas sociais. A corrida pela boa posição, pelo dinheiro, pela respeitabilidade exigiram que se seguisse um caminho de há muito já trilhado, com profundos sulcos, na realidade abismos engolidores de individualidades. Evitar estes buracos, estas armadilhas, requer aprendizado, orientação e para isto existe família, religião, psicoterapia de apoio e ajuste, clubes, escolas de etiquetas, enfim todas as instituições massificadoras, salvadoras.

Onde está a motivação? Onde está o é que complexo, insinuante, pregnante e novo? [5] Em nada, absolutamente nada. Na alienação, a questão é como ter habilidade, como ter instrumentos, como adquirir condições, perícia para atingir o almejado dinheiro na ponta do pau de sebo [6], ou como atingir o nirvana da iluminação, do prazer, do despreendimento. Qual o caminho da satisfação, da riqueza, da bondade, do reino dos céus, da bem-aventurança e poder? Isto é o que querem aprender e saber quando vivem na alienação dos padrões e sistemas constituintes. Não havendo nada novo, nada que nos motive enquanto presente e prensença, somos endereçados a repetir caminhos; supressa a possibilidade de criação, resta-nos a repetição; a habilidade em repetir, copiar e fazer cada vez melhor, com menos custo, menos ônus e mais lucro, mais vantagem. Surgem assim os valores como determinantes e motivantes de conportamento. Novas representações, símbolos responsáveis por distorções ensejadoras e mantenedoras de fragmentações e omissões, caracterizadoras de coisificação, de neurose, da alienação humana, criadora de metas e a priori esvaziadores do presente.

A vivência norteada, situada e contextuada em valores é neurotizante, alienante, pois o valor é aderente à nossa humanidade, ao nosso estar-no-mundo, não integra, podendo desintegrar quando tentamos nos situar e com eles nos relacionar dedicadamente, pois que valores são símbolos, rótulos, regras, padrões extrínsecos à globalidade individualizada do ser humano. Valores criam normas, critérios de certo e errado, bitolas configuradoras do estar-no-mundo. São faróis, iluminam nossa estrada, situam. Extraem, descentralizam nossos referenciais individuais, coisificam-nos, fazem que nos alienemos de nós próprios, pois que não temos mais motivações resultantes de vivências de nosso presente, mas sim resultantes de demandas previamente configuradas e programadas. Somos atores, títeres de espetáculos montados, apenas participamos das coisas a nós destinadas, às quais temos direitos a duras penas conseguidos pelo nosso esforço, nosso status, nossa família, nossa moral ilibada, etc.

O organismo biológico aprisionado ao sistema social é o homem massificado, despersonalizado, alienado, neurótico, que não vivencia o presente, embora nele esteja vivendo. É altíssimo o preço deste absurdo, desta contravenção ao natural perceber e me relacionar com o que-está-aqui-e-agora-comigo - é a desumanização, a morte do ser humano enquanto possibilidade, liberdade, autonomia e individualidade. Neste universo de desumanização, de morto-vivos, porém coisas eficazes e atuantes, onde quase tudo é dimensionado e programado para suprir as necessidades de manutenção do estabelecido, não há rupturas, pois que a quebra, a mudança, o novo é o caos, a desordem, o desespero. Surgem os preservadores e conservadores da ordem: instituições (família, casamento etc.), e as ciências, principalmente as sociais, voltadas para o homem e preocupadas em explicar que ele é complexo, agressivo, precisando ser domesticado, vêem as religiões prometendo salvação para as almas, vitória nas concorrências, nas competições do sistema, através de sacrifícios, doações, promessas, etc. Os sistemas procuram apagar a chama de possibilidade humana que ainda existe, apesar de fraca, daí o esforço para situar o homem em seu passado, seus condicionamentos, animando-o com esperanças e crenças de futuro, negando-lhe assim o remédio ressuscitador: a vivência do presente.

O ser humano é um organismo biológico dentro de um sistema social com infinitas possibilidades de relacionamento com os seus situantes e configurantes. A essência humana é relacional, ou a vivência constitui a wesenchau humana [7] e é a partir desta essência que o homem se constitui como homem ou se aliena afastanto-se destas demandas relacionais ao trocá-las por garantias posicionais. Ao se deter, imobilizando seu movimento, ele se desumaniza, aliena-se de suas possibilidades, estruturando-se através de suas necessidades, virando escravo de seus sistemas sociais, familiares e de seus desejos sexuais, intelectuais, etc.

Em outro nível, discutamos este assunto: motivação e alienação,humanização e desumanização. A essência humana, o que é configurador, o quantitativo, intrínseco ao homem é a possibilidade de se relacionar consigo mesmo, com o outro e com o mundo, em outras palavras, a possibilidade de relação é uma qualidade humana. Esta qualidade humana resultante de uma diferenciação neurofisiológica, orgânico-biológica, transcende portanto o dado orgânico, criando uma nova gestalt: o homem--no-mundo, pela transformação de quantidade [8] e a evolução; a dinâmica biológica realizando-se e sendo transcendida pelas próprias imanências constitutivas: as relações ensejadoras.

Este processo é continuo, quando quebrado não desaparece a qualidade básica do humano - sua possibilidade de relação - mas fica limitada, referenciada aos padrões de repetição mecânica; nestes compassos binários, os ciclos dinâmicos estereotipam configurações necessárias, de sobrevivência e a qualidade humana fica apenas sobrevivendo ao mínimo, para a manutenção do esforço. Quanto mais auto-referenciadamente se estabelecem relações, menos se qualifica como possibilidades, mais se situa como quantidade necessária de informação, movimentos e esforços para a manutenção das organizações massificantes. A psicoterapia gestaltista busca, ao questionar e motivar o ser humano para a vivência do problema como presença aprisionante e restritiva, reestruturar seus relacionamentos, conferindo-lhe assim uma qualidade humana. Perceber que é um problema, que está auto-referenciado, motivado por necessidades, esvaziado enquanto presente, abre perspectiva, situa de uma maneira nova diante da realidade. O indivíduo começa a ficar motivado pela vivência presente de sua problemática, ao percebê-la de uma maneira nova, pregnante e complexa. Esta diversificação vivencial, resultante da antítese psicoterapêutica, propicia conflitos, descobertas, mudanças perceptivas responsáveis por mudanças comportamentais.

A percepção da própria problemática, enquanto entrave existencial, cerceamento de possibilidades, desaliena, pois que desaparece o deslocamento das tensões, homogeneizador e esvaziante. [pags. 47 a 54].



NOTAS:

[4] - Infelizmente, a Psicanálise, o Behaviorismo, o Marxismo, enfim a dita ciência social moderna, por suas fundamentações deterministas e reducionistas ainda pensam o homem assim. As repercussões destas fundamentações teóricas são de inúmeras parcializações, distorções nas suas proposições práticas de como melhorar, tratar ou enfocar o homem.

[5] - Complexidade, novidade, pregnância e closura são as características das vivências de motivação. Novo é o antagonismo entre o que se percebe (acontece) e o que se esperava perceber (acontecer): quanto mais organização, pregnância na situação, contexto vivenciado, mais motivação, idem para a complexidade e para a percepção de gestalten que insinuam seu fechamento, sua complementação, sua closura.

[6] - No Brasil, existe uma brincadeira de crianças, o pau-de-sebo: enfia-se um mastro, um grande pau de cinco a seis metros de altura untado de sebo, gordura, tendo na sua extremidade uma bolsa com moedas ou uma cédula: as crianças começam a subir para pegar a bolsa/cédula, mas escorregam, caem, ficando impossível atingir a ponta do mastro, a não ser utilizando artifícios neutralizadores da gordura: quem o fizer e conseguir pegar a bolsa/cédula, é o vencedor, o dono do prêmio.

[7] - Wesenchau utilizada no sentido husserliano.

[8] - É interessante lembrar que segundo a dialética a qualidade é uma transformação de quantidades.

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