1988

Relacionamento Trajetória do Humano

Vera Felicidade de Almeida Campos, Edição da Autora, Salvador, 1988

[Edição impressa esgotada, reeditado em eBook]

Livro

Extrato

Capítulo I - Percepção é Relacionamento

No ser humano nada é determinante, nada é determinado, tudo é estruturado ou apenas a estrutura é o determinante. Perceber a estrutura como determinante exila qualquer preexistência, causa ou gênese para a estruturação, pois o que existe é resultante do encontro de relações configurativas do estar-no-mundo, do estar com o outro. [1]

Ao colocar esse tipo de problema queremos afirmar uma visão não dualista, uma visão unitária que é nosso estruturante teórico, prático, relacional. Não acreditamos em natureza humana, instintos, inconsciente, libido, organon, tampouco em talentos, dores e mazelas recebidos ou aprendidos, estereotipados pela cultura, família, educações tirânicas/benevolentes, astros e karmas. Tudo isso pode até existir, mas não como estruturante do humano.

Em palavras fenomenológicas diremos que a essência do humano é relacional, isto é, seu constituinte estrutural é a relação. Nada mais unitário. Já não cabem dualismos, reducionismos, elementarismos, causalismos. A relação, como constituinte estrutural, é uma unidade. O que é relação, o que a constitui e como se evidencia essa unidade? Sempre que se filosofou, teorizou, pensou e vivenciou, essa questão esteve presente, revestida das mais variadas formas, às vezes tão fantasiada que tornava-se irreconhecível. A teoria do conhecimento, ao longo dos séculos, conseguiu posicionamentos resumidores: o conhecimento, a ideia, o pensamento, a alma criam o mundo, criam o homem, o sentimento, as emoções, a realidade, tudo enfim e essa é a posição idealista, que encontramos em Platão, Aristóteles, Descartes, Bergson, Nietzsche (a vontade), Freud (o inconsciente), Jung (arquétipo), Spinoza (mônadas), Kant etc. É Deus criando o mundo, criando o homem, o espírito. É a ideia criando a matéria. Na posição materialista, o mundo, o homem, a realidade, a matéria criam o conhecimento, a ideia, o pensamento, o psiquismo, o sentimento, a percepção e essa é a posição que encontramos, por exemplo, em Heráclito (o movimento), Marx e Husserl em certas fases.

Desses posicionamentos resumidores, duas coisas são pregnantes, a primeira: as limitações na abordagem, as direções do pensamento são da direita para a esquerda e vice-versa, a ideia cria a matéria ou a matéria cria a ideia. A essência não foi atingida, brigou-se em cima de um demarcado. A segunda: o lado da ideia como pré-existente sempre teve mais adeptos, sempre foi o mais privilegiado, era estatisticamente o melhor, o consensualmente válido, foi o mais pregnante. Em desenvolvimentos ulteriores sobre relacionamentos humanos ficará clara a razão desse autorreferenciamento, dessa distorção perceptiva.

Assolados, acossados pelas informações e formações culturais e acadêmicas, poderíamos pegar um atalho, que distorcido seria um caminho e criaríamos outra dicotomia: pensamento tradicional X pensamento moderno. Então, diríamos que Lao Tsé, Confúncio, o hinduísmo, as cosmogonias africanas, principalmente a yorubá - mais elaborada e consistente - devolveram o homem à sua verdadeira essência, vendo o mundo como ele é. Explicaríamos ainda - entendendo a história como trajetória - a pegada do humano, as leis econômicas, enfim, toda a industrialização e retirada do humano de seu natural ecológico, separação essa responsável pela sua desumanização.

Explicações são sempre residuais, são posicionamentos, quebram a gestalt à medida que estruturam outras. Diante do mundo, do outro, de si mesmo, existe relacionamento, existe vivência. A maneira de globaliza-lo (diferente de entender, explicar) é vivencia-lo enquanto integração, é passar a ser o vivenciado, não sobra sequer espaço, nem tempo para nada. A matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço e quando negamos isso começam as superposições que nos colocam em contextos outros, ocasionando distorções. Se quisermos passar essas vivências para alguém teremos que descrever, que registrar. Este livro é isto: um registro, uma descrição de vivências, de questionamentos, de trajetórias do humano.

Como conseguiremos essa descrição sem referenciais interpretativos, valorativos? Conseguindo conceituar, detectar as unidades estruturantes do relacionamento humano.

Quando penso na relação está integrado em mim o conceito de ponto e sua distorção. O conceito geométrico de ponto diz: “o ponto é a interseção de dois segmentos de retas”, “a reta é uma sucessão indefinida de pontos”.

Penso também na distorção, na maneira didática de interpretar o conceito, para ficar mais fácil, para o outro entender melhor. Os professores às vezes dizem: “ligando o ponto A ao ponto B temos uma reta”. Quando pensamos em retas assim:

o posicionamento quebra a relação, mas, a relação é que muda e gera os posicionamentos. [2] Se estivéssemos escrevendo um livro de filosofia poderíamos ficar indefinidamente nesse problema e a partir daí irmos extraindo todas as coisas. Seriam interpretações, maneiras de ver, de estruturar modelos para entender o mundo. Meu objetivo não é esse, não quero entender nem explicar, quero descrever a relação, o fenômeno humano de estar em um mundo com o outro, consigo mesmo. Surge outro conceito integrado em mim: percepção é conhecimento, é comportamento, é o dado relacional, é o estruturante do humano. Neste momento não estaríamos sendo platônicos, sendo idealistas ao colocar a percepção como causa, como equivalente de ideia, substitutiva de inato, de inconsciente? Vamos ver o que é percepção.

Para o psicólogo gestaltista percepção é o mesmo que vida para um biólogo. Não é que não se defina e esteja presente em tudo, não é que se explicite e com isso se situe, é que psicologia é o estudo da percepção, tanto quanto biologia o é da vida. Tanto a psicologia como a biologia sofreram várias distorções provenientes do inatismo, do determinismo mecanicista e elementarista. No caso da psicologia vemos Freud falar de percepção como projeção e na biologia não faltou quem defendesse a teoria do homúnculo (miniatura do feto humano que se supunha existir no espermatozóide).

Perceber é conhecer pelos sentidos. Essa definição clássica da Psicologia da Gestalt surgiu como antítese ao empirismo, à teoria da consciência como um mosaico mental, que dizia ser a percepção uma elaboração dos dados imediatos recolhidos pelos sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar). Quando Koffka, Koehler e Wertheimer disseram que a percepção era direta, imanente ao relacionamento com a realidade, eles estavam negando a conceituação de percepção como função superiora (tese da Escola de Graz), eles estavam tirando as preexistências do ato perceptivo, pois já eram beneficiados pela visão de Brentano e Husserl, sendo, assim, acusados de holistas, emergentista, pois a percepção ficava como uma mágica, um clique. Em 1912, os estudos psicológicos estavam recém saídos da psicofisiologia, da psicofísica (Wundt, Weber, Fechner). A preocupação psicológica consistia em determinar as diferenças individuais, por meio da medida das diferenças dos limiares perceptivos. Pensava-se em ciência como quantificação, exatidão e medida. Ciência era o saber, era a autoridade que arrumava o caos do mundo, do humano. Os gestaltistas achavam que o mundo não era um caos, era um cosmos, que a organização era imanente, intrínseca ao fenômeno. Eles acreditavam que tinham que descrever, não precisavam introduzir categorias (instinto, libido, Deus, inconsciente, mensuração) para arrumar o mundo, para arrumar o homem.

A conceituação de perceber como conhecer pelos sentidos é perfeita enquanto antítese ao elementarismo, entretanto não nos basta como explicação do estruturante relacional. Há um contextuamento semântico que precisa ser limpo e mudado, a fim de não cairmos em dualismos.

Então, integramos que perceber é relacionar-se e isso fica muito nítido se, ao partir da conceituação (perceber é conhecer pelos sentidos), neutralizando o dualismo entre conhecer e sentidos, vemos a maneira, o meio que o homem tem de se efetivar como diferente do inanimado, diferente das coisas, como sendo por meio da percepção. Ele se relaciona com o mundo, com ele próprio e com o outro e tal não o faz um caderno, uma porção de terra ou o inanimado. O que movimenta, dinamiza e constitui o humano é a percepção do mundo, do outro, de si mesmo. Basta pensar em um ser humano sem os cinco sentidos ou arbitrariamente deles privado - a retirada do espaço e do tempo -, deixando apenas resíduos por meio da memória e do pensamento, e ele se auto mantém dentro de certos limites. A percepção, o estar em relação, faz com que o homem se situe em um tempo e em um espaço.

Somos humanos, percebemos, vivemos em um tempo e em um espaço, estamos no mundo. Somos reais, existimos. Em meu livro “Psicoterapia Gestaltista Conceituações” existem abordagens sobre o que é o ser humano, fundamentais para a compreensão das questões aqui enfocadas.

Imanente, próprio e constituinte de um ser humano é estar em um tempo, estar em um espaço. Não vamos dizer que essas interseções - tempo e espaço - criam o homem, nem que este as origina. A aventura, a estabilização, a tragédia, a alegria, a desgraça, o nirvana, a comédia, o drama, a rotina, a realização ou a não realização do humano aí começa - é o psicológico - a estruturação da atitude humana sobrevivente ou existente, o homem enquanto homem ou o homem como mais um objeto que ocupa um lugar no espaço e no tempo.

Ao nascer, ao encontrar um tempo e um espaço, o ser humano começa a desenvolver sua humanidade, começa a se relacionar, isto é, a perceber.

Os gestaltistas, Koffka, Koehler e Wertheimer realizaram uma série de estudos experimentais sobre percepção, estabelecendo leis para o fenômeno perceptivo. Max Wertheimer apresentou alguns princípios importantes de agrupamento ou de organização perceptiva. Demonstrou tais princípios com desenhos de pontos e linhas. Enunciaremos esses princípios e faremos algumas transposições para as vivências, para os relacionamentos humanos.

O princípio básico é de que “toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo”. Percebemos o elemento Figural, o Fundo nunca é percebido, embora seja estruturante contextual da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo. O que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa. Algumas situações possuem uma estrutura que possibilita e favorece essa reversibilidade, outras que a dificultam dada a pregnância do Figural. Por exemplo: em uma página de um livro a percepção das letras, do papel, do texto e do contexto. Outro exemplo: percebendo a pintura indígena de uma tartaruga (Figura), vejo a casca de árvore onde ela foi pintada (Fundo em relação à percepção da tartaruga e, agora, quando percebido, torna-se Figura). A tartaruga indígena é Figura que se transforma em pensamento, que como prolongamento perceptivo passa a ser estruturante de percepção: a arte dos índios, o massacre que eles sofreram, sua dizimação, o dia em que comprei essa pintura, a lembrança da loja, da conversa que mantive, as motivações e vivências que tonalizavam aquele tempo, enfim, a percepção dessa tartaruga, aqui-e-agora-comigo, me remete a outros lugares, outros tempos que se transformam em agora.

A não conceituação da percepção, sua unilateralização ao ser explicada como projeção, essa visão determinista levou Freud a utilizar a associação de ideias como maneira de explicar o percebido, de explicar o humano. Fica fácil entender essa distorção pois não havia globalização, desse modo dicotomiza e fragmenta a realidade, postulando que ela é um símbolo tradutor e captador de nossa realidade interna, de nosso inconsciente. Esse mecanismo foi terrível porque por meio dele se negou o mundo - que era considerado o externo - e começou a se pesquisar o subterrâneo, o inconsciente, quebrando, assim, a relação, a gestalt homem-no-mundo. Pensemos nisso enquanto Figura e Fundo. o homem Figura e o mundo Fundo e vice-versa. Quantas percepções, quantas relações, quantos conhecimentos surgem.

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NOTAS:


[1] - O tipo de questão que nós colocamos pode também ser vivenciado no seguinte: o vento bate nas folhas e elas se movem. Estrutura, circunstância, encontro, relacionamento. Batendo o vento em uma pilastra não há movimento da mesma. Apesar de sua estrutura, não havendo vento, as folhas não se movem. Esse encontro estrutural, circunstancial (acidente) é que precisa ser globalizado, conceituado. Explicações deterministas, psicanalistas ou do tipo junta a fome com a vontade de comer são muito estigmáticas; o popular é estigmático, é unilateral - apenas a necessidade é levada em conta. Relacionamento humano é busca ou encontro? Estar disponível ou à mercê? Carência ou auto determinação? Despersonalização ou individualidade? Eu preciso ou eu quero? Que é precisar? Que é querer? A priori ou meta? O que é imanente? O que é transcendente ao relacionamento? O que é real e o que é ilusório no relacionamento humano? O que é participação? O que é eu com o outro no mundo? O que é neurose? No decorrer deste livro responderemos estas questões.

[2] - No capítulo sobre disponibilidade (avaliação) veremos como este conceito é fértil.
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