1988

Relacionamento Trajetória do Humano

Vera Felicidade de Almeida Campos, Edição da Autora, Salvador, 1988

Livro

Extrato

Capítulo I - Percepção é Relacionamento

No ser humano nada é determinante, nada é determinado, tudo é estruturado ou apenas a estrutura é o determinante. Perceber a estrutura como determinante exila qualquer preexistência, causa ou gênese para a estruturação, pois o que existe é resultante do encontro de relações configurativas do estar-no-mundo, do estar com o outro. [1]

Ao colocar esse tipo de problema queremos afirmar uma visão não dualista, uma visão unitária que é nosso estruturante teórico, prático, relacional. Não acreditamos em natureza humana, instintos, inconsciente, libido, organon, tampouco em talentos, dores e mazelas recebidos ou aprendidos, estereotipados pela cultura, família, educações tirânicas/benevolentes, astros e karmas. Tudo isso pode até existir, mas não como estruturante do humano.

Em palavras fenomenológicas diremos que a essência do humano é relacional, isto é, seu constituinte estrutural é a relação. Nada mais unitário. Já não cabem dualismos, reducionismos, elementarismos, causalismos. A relação, como constituinte estrutural, é uma unidade. O que é relação, o que a constitui e como se evidencia essa unidade? Sempre que se filosofou, teorizou, pensou e vivenciou, essa questão esteve presente, revestida das mais variadas formas, às vezes tão fantasiada que tornava-se irreconhecível. A teoria do conhecimento, ao longo dos séculos, conseguiu posicionamentos resumidores: o conhecimento, a ideia, o pensamento, a alma criam o mundo, criam o homem, o sentimento, as emoções, a realidade, tudo enfim e essa é a posição idealista, que encontramos em Platão, Aristóteles, Descartes, Bergson, Nietzsche (a vontade), Freud (o inconsciente), Jung (arquétipo), Spinoza (mônadas), Kant etc. É Deus criando o mundo, criando o homem, o espírito. É a ideia criando a matéria. Na posição materialista, o mundo, o homem, a realidade, a matéria criam o conhecimento, a ideia, o pensamento, o psiquismo, o sentimento, a percepção e essa é a posição que encontramos, por exemplo, em Heráclito (o movimento), Marx e Husserl em certas fases.

Desses posicionamentos resumidores, duas coisas são pregnantes, a primeira: as limitações na abordagem, as direções do pensamento são da direita para a esquerda e vice-versa, a ideia cria a matéria ou a matéria cria a ideia. A essência não foi atingida, brigou-se em cima de um demarcado. A segunda: o lado da ideia como pré-existente sempre teve mais adeptos, sempre foi o mais privilegiado, era estatisticamente o melhor, o consensualmente válido, foi o mais pregnante. Em desenvolvimentos ulteriores sobre relacionamentos humanos ficará clara a razão desse autorreferenciamento, dessa distorção perceptiva.

Assolados, acossados pelas informações e formações culturais e acadêmicas, poderíamos pegar um atalho, que distorcido seria um caminho e criaríamos outra dicotomia: pensamento tradicional X pensamento moderno. Então, diríamos que Lao Tsé, Confúncio, o hinduísmo, as cosmogonias africanas, principalmente a yorubá - mais elaborada e consistente - devolveram o homem à sua verdadeira essência, vendo o mundo como ele é. Explicaríamos ainda - entendendo a história como trajetória - a pegada do humano, as leis econômicas, enfim, toda a industrialização e retirada do humano de seu natural ecológico, separação essa responsável pela sua desumanização.

Explicações são sempre residuais, são posicionamentos, quebram a gestalt à medida que estruturam outras. Diante do mundo, do outro, de si mesmo, existe relacionamento, existe vivência. A maneira de globaliza-lo (diferente de entender, explicar) é vivencia-lo enquanto integração, é passar a ser o vivenciado, não sobra sequer espaço, nem tempo para nada. A matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço e quando negamos isso começam as superposições que nos colocam em contextos outros, ocasionando distorções. Se quisermos passar essas vivências para alguém teremos que descrever, que registrar. Este livro é isto: um registro, uma descrição de vivências, de questionamentos, de trajetórias do humano.

Como conseguiremos essa descrição sem referenciais interpretativos, valorativos? Conseguindo conceituar, detectar as unidades estruturantes do relacionamento humano.

Quando penso na relação está integrado em mim o conceito de ponto e sua distorção. O conceito geométrico de ponto diz: “o ponto é a interseção de dois segmentos de retas”, “a reta é uma sucessão indefinida de pontos”.

Penso também na distorção, na maneira didática de interpretar o conceito, para ficar mais fácil, para o outro entender melhor. Os professores às vezes dizem: “ligando o ponto A ao ponto B temos uma reta”. Quando pensamos em retas assim:

o posicionamento quebra a relação, mas, a relação é que muda e gera os posicionamentos. [2] Se estivéssemos escrevendo um livro de filosofia poderíamos ficar indefinidamente nesse problema e a partir daí irmos extraindo todas as coisas. Seriam interpretações, maneiras de ver, de estruturar modelos para entender o mundo. Meu objetivo não é esse, não quero entender nem explicar, quero descrever a relação, o fenômeno humano de estar em um mundo com o outro, consigo mesmo. Surge outro conceito integrado em mim: percepção é conhecimento, é comportamento, é o dado relacional, é o estruturante do humano. Neste momento não estaríamos sendo platônicos, sendo idealistas ao colocar a percepção como causa, como equivalente de ideia, substitutiva de inato, de inconsciente? Vamos ver o que é percepção.

Para o psicólogo gestaltista percepção é o mesmo que vida para um biólogo. Não é que não se defina e esteja presente em tudo, não é que se explicite e com isso se situe, é que psicologia é o estudo da percepção, tanto quanto biologia o é da vida. Tanto a psicologia como a biologia sofreram várias distorções provenientes do inatismo, do determinismo mecanicista e elementarista. No caso da psicologia vemos Freud falar de percepção como projeção e na biologia não faltou quem defendesse a teoria do homúnculo (miniatura do feto humano que se supunha existir no espermatozóide).

Perceber é conhecer pelos sentidos. Essa definição clássica da Psicologia da Gestalt surgiu como antítese ao empirismo, à teoria da consciência como um mosaico mental, que dizia ser a percepção uma elaboração dos dados imediatos recolhidos pelos sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar). Quando Koffka, Koehler e Wertheimer disseram que a percepção era direta, imanente ao relacionamento com a realidade, eles estavam negando a conceituação de percepção como função superiora (tese da Escola de Graz), eles estavam tirando as preexistências do ato perceptivo, pois já eram beneficiados pela visão de Brentano e Husserl, sendo, assim, acusados de holistas, emergentista, pois a percepção ficava como uma mágica, um clique. Em 1912, os estudos psicológicos estavam recém saídos da psicofisiologia, da psicofísica (Wundt, Weber, Fechner). A preocupação psicológica consistia em determinar as diferenças individuais, por meio da medida das diferenças dos limiares perceptivos. Pensava-se em ciência como quantificação, exatidão e medida. Ciência era o saber, era a autoridade que arrumava o caos do mundo, do humano. Os gestaltistas achavam que o mundo não era um caos, era um cosmos, que a organização era imanente, intrínseca ao fenômeno. Eles acreditavam que tinham que descrever, não precisavam introduzir categorias (instinto, libido, Deus, inconsciente, mensuração) para arrumar o mundo, para arrumar o homem.

A conceituação de perceber como conhecer pelos sentidos é perfeita enquanto antítese ao elementarismo, entretanto não nos basta como explicação do estruturante relacional. Há um contextuamento semântico que precisa ser limpo e mudado, a fim de não cairmos em dualismos.

Então, integramos que perceber é relacionar-se e isso fica muito nítido se, ao partir da conceituação (perceber é conhecer pelos sentidos), neutralizando o dualismo entre conhecer e sentidos, vemos a maneira, o meio que o homem tem de se efetivar como diferente do inanimado, diferente das coisas, é por meio da percepção. Ele se relaciona com o mundo, com ele próprio e com o outro e tal não o faz um caderno, uma porção de terra ou o inanimado. O que movimenta, dinamiza e constitui o humano é a percepção do mundo, do outro, de si mesmo. Basta pensar em um ser humano sem os cinco sentidos ou arbitrariamente deles privado - a retirada do espaço e do tempo -, deixando apenas resíduos por meio da memória e do pensamento, e ele se auto mantém dentro de certos limites. A percepção, o estar em relação, faz com que o homem se situe em um tempo e em um espaço.

Somos humanos, percebemos, vivemos em um tempo e em um espaço, estamos no mundo. Somos reais, existimos. Em meu livro “Psicoterapia Gestaltista Conceituações” existem abordagens sobre o que é o ser humano, fundamentais para a compreensão das questões aqui enfocadas.

Imanente, próprio e constituinte de um ser humano é estar em um tempo, estar em um espaço. Não vamos dizer que estas interseções - tempo e espaço - criam o homem, nem que esse as origina. A aventura, a estabilização, a tragédia, a alegria, a desgraça, o nirvana, a comédia, o drama, a rotina, a realização ou a não realização do humano aí começa - é o psicológico - a estruturação da atitude humana sobrevivente ou existente, o homem enquanto homem ou o homem como mais um objeto que ocupa um lugar no espaço e no tempo.

Ao nascer, ao encontrar um tempo e um espaço, o ser humano começa a desenvolver sua humanidade, começa a se relacionar, isto é, a perceber.

Os gestaltistas, Koffka, Koehler e Wertheimer realizaram uma série de estudos experimentais sobre percepção, estabelecendo leis para o fenômeno perceptivo. Max Wertheimer apresentou alguns princípios importantes de agrupamento ou de organização perceptiva. Demonstrou tais princípios com desenhos de pontos e linhas. Enunciaremos esses princípios e faremos algumas transposições para as vivências, para os relacionamentos humanos.

O princípio básico é de que “toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo”. Percebemos o elemento figural, o Fundo nunca é percebido, embora seja estruturante contextual da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo. O que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa. Algumas situações possuem uma estrutura que possibilita e favorecer essa reversibilidade, outras que a dificultam dada a pregnância do figural. Por exemplo: em uma página de um livro a percepção das letras, do papel, do texto e do contexto. Outro exemplo: percebendo a pintura indígena de uma tartaruga (Figura), vejo a casca de árvore onde ela foi pintada (Fundo em relação à percepção da tartaruga e, agora, quando percebido, torna-se Figura). A tartaruga indígena é Figura que se transforma em pensamento, que como prolongamento perceptivo passa a ser estruturante de percepção: a arte dos índios, o massacre que eles sofreram, sua dizimação, o dia em que comprei essa pintura, a lembrança da loja, da conversa que mantive, as motivações e vivências que tonalizavam aquele tempo, enfim, a percepção dessa tartaruga, aqui-e-agora-comigo, me remete a outros lugares, outros tempos que se transformam em agora.

A não conceituação da percepção, sua unilateralização ao ser explicada como projeção, essa visão determinista levou Freud a utilizar a associação de ideias como maneira de explicar o percebido, de explicar o humano. Fica fácil entender esta distorção pois não havia globalização, desse modo dicotomiza e fragmenta a realidade, postulando que ela é um símbolo tradutor e captador de nossa realidade interna, de nosso inconsciente. Esse mecanismo foi terrível porque através dele se negou o mundo - que era considerado o externo - e começou a se pesquisar o subterrâneo, o inconsciente, quebrando, assim, a relação, a gestalt homem-no-mundo. Pensemos nisso enquanto Figura e Fundo. o homem Figura e mundo Fundo e vice-versa. Quantas percepções, quantas relações, quantos conhecimentos surgem.

Agrupamento por proximidade: “Em condições iguais, os estímulos em maior proximidade terão maior possibilidade de serem agrupados”. A proximidade pode ser espacial, tal como no exemplo a seguir, ou pode ser temporal.

O agrupamento por proximidade é responsável pela montagem de uma série de estereótipos, de preconceitos, de clichês mentais. As páginas policiais dos jornais, por exemplo, estão cheias de notícias sobre assaltos e crimes, via de regra cometidos por negros: surge o estereótipo do negro como marginal. Não se percebe a essência estruturante dessa relação de marginalidade que reside no fato da abolição da escravidão ter sido assinada no papel sem consequente profissionalização dos ex-escravos, decorrendo disso sua integração à sociedade produtiva como mão-de-obra explorada e oprimida. Os judeus, após a guerra, tiveram que sobreviver fundamentalmente pelo comércio. Dentro de uma loja, ou o “homem da prestação” - que vendia coisas de porta em porta - sempre era um judeu: estabeleceu-se o estereótipo que judeu só pensa em dinheiro, pois ele sempre estava vendendo.

Agrupamento por semelhança: “Em condições iguais, os estímulos mais semelhantes entre si, terão maior possibilidade de serem agrupados”.

Por meio do agrupamento por semelhança verificamos, também, que é muito fácil explicar os esteeótipos e os preconceitos. Poderíamos mesmo dizer que a psicologia social seria desenvolvida, escrita, ao abordar essas leis. O dito comportamento de massas, o comportamento popular, sempre unilateralizado pelas motivações polarizantes, unidirecionais, bem explica isso: emoções, agressividade em um campo de futebol, desvarios passionais diante das copas do mundo, do desfile de escolas de samba etc., decorrem da percepção de que o que não é igual a mim, não é meu, não presta. O autoritarismo, as discriminações, as parcializações, aí também podem ser inseridas. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” é uma atitude avaliadora típica: assemelhando-se ao rico, fazendo o que ele faz, se é rico também, ou no mínimo, se tem o seu apoio ou o seu reconhecimento.

O agrupamento por semelhança leva também a insight, a criatividade do tipo se A=B e B=C, C=A. O semelhante é sempre o outro. Um outro, o duplo pode não ser o igual. A não discriminação disso possibilita distorções e anulações. No próprio relacionamento humano às vezes percebemos o outro - meu semelhante - como meu duplo, transformamos o diferente em igual, sem perceber que essa igualdade já configura uma diferença, uma neutralização, uma pontualização relacional.

Os ditos populares “não compre gato por lebre”; “não confunda alhos com bugalhos” comentam esses princípios intrínsecos de organização do fenômeno perceptivo.

Agrupamento por boa forma: “Os estímulos que formam uma boa figura terão uma tendência para ser agrupados”. Essa apresentação é muito geral e pretende abranger um certo número de variáveis mais específicas deste tópico, tradicionalmente classificados da seguinte maneira:

BOA CONTINUIDADE - “a tendência dos elementos para acompanhar outros, de maneira a permitir a continuidade de uma linha, de uma curva, de um movimento numa direção já estabelecida”. Exemplo:

SIMETRIA - “a preferência pelo agrupamento que leva a todos simétricos ou equilibrados e não a todos assimétricos”. Exemplo:

FECHAMENTO OU CLOSURA - “o agrupamento de elementos de maneira a constituir uma figura total mais fechada ou mais completa”. Exemplo:

DESTINO COMUM  - “a preferência pelo agrupamento dos elementos que se movem ou se transformam numa direção comum e, assim, se distinguem dos que têm outras direções de movimento ou mudança no campo. Consideramos que todas as percepções que resultam dos determinantes acima são tais que satisfazem ao critério de boa figura, boa forma, isto é, aquela que é a mais contínua, a mais simétrica, a mais fechada, a mais unificada”. Exemplo:

No autorreferenciado o mais pregnante - a boa forma - é o já conhecido, o que pode satisfazer necessidades, o que dá prazer. O autorreferenciado percebe o mundo e o outro através de uma atitude hedonista: ele foge da dor e busca o prazer (vemos aí as raízes da ideia freudiana do Princípio do Prazer como explicação básica do comportamento humano). O mundo e o outro são avaliados em termos do que vai lhe fazer bem e do que pode lhe fazer mal. Essa busca de bem-estar, esse hedonismo leva o ser humano a sobreviver. A transcendência passa a ser representada por frustrações, por fracassos e por vitórias. É o que a psicologia elementarista chama de emoção. A distorção é muito grande, pois o que seria atitude passa a ser resíduo, a priori. Nessa atitude de sobrevivência, a boa continuidade - a tendência dos elementos para acompanhar outros, de maneira a permitir a continuidade de uma linha, de uma curva, de um movimento, numa direção já estabelecida - pode ser entendida como o melhor caminho que leve à satisfação de necessidades. É a avidez, é a ganância.

SIMETRIA - “a preferência pelo agrupamento que leve a todos simétricos ou equilibrados e não a todos assimétricos” - pode ser traduzida pelo conhecido egoísmo: “o que não está comigo, está contra mim”. O que não dá vantagem, não serve, não é útil, tem que ser descartado, destruído. Minorias desestabilizam os sistemas, então, sejamos contra elas. Precisando de escravos, dependentes, não se pode percebê-los como individualidades, é preciso enquadrá-los em rótulos, categorias, classes - é o filho, a mulher, o empregado, o homossexual - são os neutralizados moral e economicamente pelo sistema social.

FECHAMENTO - “o agrupamento de unidades, situações, de maneira a constituir uma figura total mais fechada, mais completa”. Exemplo:

Percebemos um triângulo, embora não existam três ângulos. Fechamento ou closura é um princípio de organização muito presente nos processos criativos, tanto quanto nas distorções. Arte, pintura e cinema, por excelência, muito a enfatizam. Picasso recriou todo o espaço pictórico mergulhando nas profundidades do fechamento, da closura (sobre o assunto é interessante a leitura do livro “Arte e Percepção Visual” de Rudolf Arnheim). A insinuação, o sutil sendo Figura, o implícito como pregnante, é um dos horizontes e constituintes relacionais do humano, é a expressão que se apreende. Koffka diz: “antes da criança se familiarizar com o seio materno ela apreende o rosto, o sorriso de sua mãe”. O olho no olho para saber se as palavras são verdadeiras é uma closura cotidiana que os seres humanos fazem.

DESTINO COMUM - “a preferência pelo agrupamento dos elementos que se movem ou se transformam numa direção comum e, assim, se distinguem dos que têm outras direções de movimento ou mudança no campo”. É própria do denso, do enfático, não possibilita dúvidas. Podemos exemplificar com as participações, os movimentos, os comentários, a publicidade, as induções comportamentais.

O agrupamento por boa forma, pregnância, isto é, aquela figura que é mais contínua, mais simétrica, mais fechada, mais unificada, mais pregnante, a que se impõe constituindo-se em referencial perceptivo, possibilitadora de destaque, de contornos, é responsável pela explicação da percepção, estruturação e apropriação do esquema corporal. Lacan, utilizando e distorcendo contribuições de Merleau-Ponty e Henri Wallon sobre a percepção de si mesmo na criança, teceu inúmeros bordados lingüísticos sobre a formação da imagem especular (do espelho) sem conseguir atingir ou globalizar a questão. Estando no mundo com o outro, a criança o percebe desde o início de sua existência. Essa percepção de boa forma, de pregnância, faz com que o outro seja percebido e nesse referencial é estruturada a percepção do próprio corpo. Quando a criança chega ao espelho ela se reconhece, confirma sua percepção, há um insight: “eu sou igual a ele, a ela!” Por continuidade, simetria, destino comum, fechamento - sem o espelho - a criança viu sua mão, seu pé, sua perna e completou, fechou a percepção do seu corpo por meio da simetria encontrada no semelhante, no outro. Quebra-cabeças se resolvem quando existe um modelo. Comportamento se explica quando existem conceituações globalizantes unitárias.

Perceber é relacionar-se. Ao colocar esses princípios e exemplos de percepção, estamos dando contextos para os desenvolvimentos ulteriores que faremos neste trabalho, daí utilizarmos exemplos, sem maiores aprofundamentos, apenas para contextuar a questão.

Qualquer relacionamento, qualquer percepção, o homem diante do novo, a criança diante do mundo, do outro, é um contorno (no sentido de diferenciação perceptiva). Desejos, motivações, presença-presente que se mantém (boa forma) criando, distorcidamente, proximidade, semelhança, destino comum, closura, simetria. No mínimo esse contorno individualiza eu e o outro, à medida que me mostra o que não é eu, seja o semelhante, seja o diferente. Como resultante desse encontro perceptivo, desse relacionamento, são estruturados referenciais, referências. É aí que a psicologia elementarista fala do saber inconsciente, do condicionamento e aprendizagem. Esses contornos ou discriminações perceptivas criam um mundo, uma realidade. Esse processo também ocorre com os animais. Eles aprendem à medida que apreendem, se relacionando em um tempo e em um espaço.

O relacionamento - a percepção - estabelece contexto, nuclealiza configurações e realidades que por sua vez se constituem, em posições, referenciais, acumulações que são processos de crescimento. É memória - dinâmica passada - é a estória, são os laços, os apegos, os medos e participações individuais. Passamos a ter limites (omissões-medos) e coisas a manter. Passamos a ter aberturas (participações-determinações) e disponibilidade.

Por meio de sucessivas vivências, percepções e relacionamentos, estruturamos necessidades. Por meio de sucessivas vivências de abertura, participação, determinação, disponibilidade, estruturamos possibilidades. Esse ponto do processo relacional (perceptivo) configura a vivência do real e do irreal. Real é o que percebemos, irreal é o que não percebemos. Realidade é o que nos situa. Quanto mais aprisionantes, limitativos, desindividualizantes, massificantes são os relacionamentos, mais a realidade se estrutura em termos de ausências, vazios que por sua vez vão estruturando desejos: suprir, preencher essas lacunas, essas descontinuidades. Começamos a tampar incapacidades, a sedar necessidades, a industrializar possibilidades. Conseguimos unilateralizar vivências e estabelecer posições a partir das quais percebemos o outro, o mundo e a nós. Ficamos cheios de regras, normas e critérios úteis. Deixamos de ser espontâneos, perdemos a curiosidade, a motivação. Já estamos prontos e devemos manter ou mudar o que somos, para continuar conseguindo o que nos falta, ou devemos manter o que nos completa. [3]

A vivência espontânea é real, fruto de um encontro com o mundo, com o outro, consigo. É percepção, é relacionamento, é ser-no-mundo-com-os-outros, é disponibilidade que se dá enquanto abertura, tanto quanto limites. Não vamos cair em dicotomias valorativas e dizer que o bom, o estruturante, o inteiro é o espontâneo. Estamos descrevendo um processo relacional, de como se estrutura a vivência do real. O espontâneo, o estar disponível e aberto para as coisas encontra regras, autoridades, culturas, padrões, que limitam, ensinam o caminho, ou então, o espontâneo, o estar disponível e aberto para as coisas encontra o outro, o diálogo, o questionamento, a participação, recebe dinamização, espontaneidade que estrutura direções.

Crescemos dando continuidade à orientação ou crescemos dando continuidade às condições de nos orientar. Real é o que percebemos, tanto em um como em outro caso, entretanto, o real do estruturado em limites é uma busca de realização de seus padrões, enquanto o real do estruturado em dinamização, em abertura, é um encontro de novos relacionamentos, é a descoberta constante de estar-no-mundo, independente de finalidades e regras.

Perceber é relacionar-se, isso é contínuo ou é quebrado, por isso a limitação, por isso a dificuldade. É muito óbvio para o senso comum e para a psicologia, sociologia e economia deterministas explicar a limitação pela necessidade: a existência dos outros, as lutas sociais, a exploração econômica, o medo de ser, a repressão, a carência afetiva (conceito psicanalítico), o destino. Em termos relacionais, descritivos, achamos que o limite é o obstáculo, é o acréscimo, em certo sentido é o que conseguimos e queremos manter, em outro é o que nos impede de conseguir, mas, mesmo aí, é o acréscimo. Se ele é limite em relação a X, é por ser apoio em relação a Y (o ponto de apoio é o ponto de opressão: o patrão que explora é o mesmo que alimenta; o marido que causa insatisfação é o que dá segurança; a imagem que tem de ser quebrada, que limita é a que sustenta, é o pedestal, o respaldo de autoridade e de poder).

Fica mais fácil repensar limitação como falta de espontaneidade e repensar disponibilidade como espontaneidade ou entender que limites estruturam atitudes de ter, conseguir, vencer, realizar, cumprir, responsabilizar-se, orgulhar-se, manter, defender, ajudar, lutar - o limite estrutura posições, desumaniza. Não havendo limite, o que é estruturado é a disponibilidade, a vivência do presente como contextuamento de atitudes que até podem ser de luta, realização, vitória, fracasso etc., mas sempre como resultante de vivências, nunca como a priori ou metas. Limitados passamos a ser alto-falantes de sistemas: família, cultura, religião, ciência, até de verdades, e o pior, amealhamos resultados, adeptos, obrigações. Surgem as mágoas, os medos, as angústias. O outro como limite é o acréscimo, é uma aderência. O mundo - o real - é a ilusão, é o irreal pois é estruturado em nossa limitação, em nosso aprisionamento. É o autorreferenciamento, a percepção do outro e do mundo a partir de si. [4] É como se transformássemos, por autofagia, nossos dados relacionais, nossa percepção, nosso conhecimento, nossos relacionamentos, nossas informações em estofo para metas e projetos de vida. Equivalente disso aconteceu com a psicologia limitada por referenciais mecanicistas, dualistas e deterministas. Começou-se a colecionar observações e experimentos sobre o comportamento humano a fim de criar categorias, classificações das reações humanas, criando tipos humanos: introvertido, extrovertido, ambigual.

Como ser diferente? Não acrescentando, não somando, tendo autonomia, aceitando a realidade, sendo espontâneo ao invés de programado para realizar, para adquirir. Não é uma regra, um discurso exortativo, o que visamos é uma descrição da dificuldade, das limitações humanas. Estamos em uma sociedade massificada e sempre ao chegar ao mundo o homem encontra limites, desde os ecológicos, climáticos, até os da relação com o outro. Que faz ele diante de tais limites? Não os aceitando, tenta cortá-los, acrescenta-os ao seu espaço, ao seu tempo, às suas vivências e tenta transcendê-los, mudá-los - enfim se compromete, aprisiona-se. Se ele os aceita, ele os neutraliza, eles deixam de ser obstáculos, acréscimos e o homem se liberta, humaniza-se, aceita seus limites: sua morte, sua vida, seus relacionamentos. Como exemplo dessa visualização passemos para o relacionamento com o outro, desde que em termos psicológicos ele é o grande limite, tanto quanto a grande transcendência e libertação do humano. [pags. 16 a 30]


NOTAS:


[1] - O tipo de questão que nós colocamos pode também ser vivenciado através do seguinte: o vento bate nas folhas e elas se movem. Estrutura, circunstância, encontro, relacionamento. Batendo o vento em uma pilastra não há movimento da mesma. Apesar de sua estrutura, não havendo vento, as folhas não se movem. Este encontro estrutural, circunstancial (acidente) é que precisa ser globalizado, conceituado. Explicações deterministas, psicanalistas ou do tipo junta a fome com a vontade de comer são muito estigmáticas; o popular é estigmático, é unilateral - apenas a necessidade é levada em conta. Relacionamento humano é busca ou encontro? Estar disponível ou à mercê? Carência ou auto determinação? Despersonalização ou individualidade? Eu preciso ou eu quero? Que é precisar? Que é querer? A priori ou meta? O que é imanente? O que é transcendente ao relacionamento? O que é real e o que é ilusório no relacionamento humano? O que é participação? O que é eu com o outro no mundo? O que é neurose? No decorrer deste livro responderemos estas questões.

[2] - No capítulo sobre disponibilidade (avaliação) veremos como este conceito é fértil.

[3] - No meu livro Mudança e Psicoterapia Gestaltista - Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, é conceituado todo o processo de mudança e motivação do humano.

[4] - Nos livros Psicoterapia Gestaltista - Conceituações, edição da Autora, Rio de Janeiro, 1973 e Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, editora Alhambra, Rio de Janeiro, 1983, o assunto é bastante desenvolvido e configurado em suas implicações.

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