1999

Desespero e Maldade
Estudos Perceptivos Relação Figura-Fundo

Vera Felicidade de Almeida Campos, Edição da Autora, Salvador, 1999

Livro

Extrato

Introdução

Os gestaltistas clássicos, principalmente Kurt Koffka, se preocupavam em saber: "Por que se vêem as coisas como se vêem", uma das implicações diretas disto era que o que comumente se percebe, o que o senso comum vê como existindo, não é a percepção do existente, é o que Koffka (1929) chamava de erro da experiência. Várias distorções na percepção do tamanho, por exemplo, exemplificam isto:

 

   
 fig.A  fig.B fig.

 

 

Na fig. A - a clássica ilusão estudada por Müller Lyer - duas linhas iguais parecem desiguais por causa das setas adjacentes; na fig. B, a figura inferior parece maior do que a superior, embora ambas tenham o mesmo tamanho; na fig. C os dois círculos centrais são iguais. A preocupação em responder à pergunta: "Por que se vêem as coisas como se vêem", exigiu inúmeros estudos e experiências perceptivas, possibilitando aos gestaltistas estabelecer leis da percepção e à Koffka, particularmente, em seu livro Principles of Gestalt Psychology - 1935, poder responder: "As coisas se vêem como se vêem por causa da organização do campo que dá lugar à distribuição da estimulação próxima. A resposta é definitiva e só o pode ser porque contém o problema íntegro da organização em si mesmo. Deste modo, nossa resposta, em lugar de fechar um capítulo da psicologia, abre um novo, fato que qualquer um que esteja em contato com a literatura psicológica deve ser advertido. Isto significa que devemos estudar as leis da organização."

Continuando a conceituação gestaltista, agora no campo psicoterápico, sempre quis saber por que as pessoas, os seres humanos, se comportam como se comportam? A resposta à esta pergunta foi dada de uma maneira obscura pela psicologia. Procurava-se decifrar enígmas, criava-se chaves tradutoras. A tautologia se impôs. Os determinismos proliferaram na explicação do fenômeno humano. Assim a essência relacional humana não foi apreendida, a relação jamais configurada. Sempre se percebeu o homem e o outro ou o homem e o mundo ou o eu e eu mesmo ou o si mesmo. Tentou-se juntar estas partes com mil artifícios. O óbvio, a relação como estruturante do sujeito e do objeto, do ser e do mundo, não foi percebida.

Koffka dizia: "Se as coisas são formadas, talvez concluamos que a estrutura não o seja. E se não o for, de onde vem a diferença?"

Dizemos: a relação é o estruturante. Percepção é a relação entre sujeito e objeto, percepção é a estrutura, não é formada, é a dinâmica. No mundo relacional, formalização, forma, são posicionamentos, estacionamentos, ainda dinâmica. Não há diferença; o que existe são relações perceptivas diversamente contextuadas. O mal, por exemplo, era explicado como o resultado de formas instintivas, do Thanatos poderoso. O mal era visto como uma falha da razão, era a supressão do "sentimento do bem". Estas formalizações, estas explicações acerca do mal, dilaceraram seus contextos estruturantes. Com estes fiapos, trapos, tentou-se uma vestimenta escamoteadora para a degradação humana.

Ao escrever sobre o mal, ao conceituar a maldade como um deslocamento decorrente dos impasses não enfrentados, mostro como a relação de não aceitação da não aceitação estrutura posicionamentos; deixo claro que percepção é a relação estruturante do comportamento, do processo psicológico humano.

A impotência, o limite negado possibilita a criação de nova dinâmica, consequentemente, também de posicionamentos estagnadores.

 

 fig. a fig. b 
 limite aceito limite negado,
deslocamento e posicionamento


O comportamento é estruturado pela percepção daí ser fundamental o estudo das leis de percepção, da Lei de Figura-Fundo.

Não há um bem, não há um mal; a maldade não resulta de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não é um instinto humano, não é uma ausência de Deus, não é a presença do Demônio. A maldade é a desumanização criada pelo auto-referenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos.

As pessoas se comportam como se comportam em função de como se percebem, como percebem o outro e o mundo. É esta relação que estrutura o humano, que estrutura o desumano.

É fundamental globalizar a relação configuradora do ser-no-mundo. O ser humano é uma possibilidade de relacionamento; mostrar como isto é contextuado, o que é percebido, quais os posicionamentos existentes, o que significa, quando significa é a grande tarefa da psicologia. Há muito por descobrir e trabalhar.

Neste livro ao mostrar que vida psicológica é vida perceptiva, espero ter dado contribuições para o processo construtor de uma visão relacional, gestáltica, do humano.

Salvador, 10 de abril de 1999
Vera Felicidade

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