2002

A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu

Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002

livro

Extrato

Introdução  

Vida psicológica é vida perceptiva, consequentemente problemas psicológicos são questões, distorções perceptivas. O processo perceptivo é o estruturante da relação do homem com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Esta relação, a percepção, é o conhecer. Quando se percebe que percebe surge a categorização expressa pela linguagem. Tudo se inicia neste processo relacional perceptivo. Por influências determinantes, causalistas, associacionistas, espacializou-se o conhecimento psicológico. Dominada pela idéia de receptáculos mentais, inconsciente e equivalentes, a psicologia dedicou-se a entender os conteudos mentais, as localizações cerebrais, deixando de perceber os processos perceptivos, relacionais.

Perceber que todo relacionamento gera posicionamentos geradores de novos relacionamentos - indefinidamente - foi, para mim, fundamental para a percepção da questão do ser, do si-mesmo e do eu.

Pode parecer estranho que esta complexa e metafísica questão - o ser - seja resolvida em poucas páginas. Esta estranheza desaparece quando pensamos que é o estudo da percepção que permite configurar o ser, o eu, o si-mesmo, tanto quanto o medo e a esperança, por exemplo.

Simbólico, real e imaginário é o tripé derrubado a fim de libertar o homem de categorizações explicativas alienantes. Reconduzir a questão humana à suas dimensões estruturantes faz com que se perceba o homem como uma possibilidade de relacionamento. Isto não aponta para nenhum bem, nem para nenhum mal, simplesmente é o processo relacional do estar vivo.

Neste livro, continuando os desenvolvimentos conceituais da psicoterapia gestaltista, focalizamos o ser e a estruturação do eu. Dizer que o ser é uma possibilidade de relacionamento, em certo sentido, é estabelecer uma rota de colisão, um antagonismo com o saber psicológico vigente, representado pela psicanálise e a psicologia cognitivista, correntes psicológicas também preocupadas com a questão do ser.

Para a psicanálise, o ser humano tem seu comportamento determinado pelas motivações inconscientes e isto fundamenta seus relacionamentos. Os cognitivistas acreditam que todo comportamento humano depende do processo cognitivo, representado pela ordenação significativa de símbolos, sinais e percepções.

Psicanalistas, congnitivistas, inúmeros filósofos e teóricos, consideram ser a linguagem, seu significado e desenvolvimento, o que estrutura o mental, a consciência.

Para nós, tudo começa com a percepção, a relação com o que está diante, depois significada e estruturada como linguagem. Vida psicológica é vida perceptiva, problemas psicológicos são questões perceptivas.

Atualmente, continuando uma necessidade de sempre, a psicologia, a neurologia, a psiquiatria, até mesmo a filosofia querem entender o que é a mente, o que é a consciência, o que é o cérebro. São sinônimos? É o cérebro que permite a mente e esta é responsável pela formação da consciência? São perguntas cujas respostas são fundamentais para a parcialização ou globalização do humano.

Cérebro é um padrão biológico responsável pelo comando de uma série de atividades neurológicas, perceptivas. Israel Rosenfield em seu livro Invenção da Memória, diz: "O cérebro é uma estrutura biológica. Somente em termos de princípios biológicos é que seremos capazes de entendê-lo" [pag. 11]. Escreve também: "Se quisermos compreender o funcionamento cerebral e sua relação com a psicologia, teremos que explicar essa extraordinária capacidade de generalizar e de categorizar as pessoas e as coisas à nossa volta" [pag. 88].

O cérebro controla nossa respiração, mas não precisamos ter consciência disto para respirar. Consciência e mente são heranças cartesianas e da psicologia atomista do século XIX, rejuvenescidas pelos psicanalistas através do conceito de inconsciente ­ avesso da consciência. Para eles, entender as projeções e sombras geradas no inconsciente e lançadas na consciência, era o que possibilitava conhecer a consciência, o consciente, o inconsciente.

Somos seres cuja imanência é biológica. Esta estrutura biológica está em um lugar, em um tempo com outros seres. Estabelecemos relações, percebendo, conhecendo. Perceber é conhecer, perceber que se percebe é categorizar. Esta categorização é o estar consciente de, é o saber que sabe. Este processo perceptivo é mantido pela memória, acionada através de novos relacionamentos pelo contexto presente. Geralmente a memória é pensada como repositório de vivências. Esta espacialização da memória exige suportes. Conteúdos mentais, mente, atendem essa exigência. Em meu livro Desespero e Maldade, 1999, escrevo: "Percepções auditivas, visuais, tacteis, olfativas, gustativas, estereoceptivas, cenestésicas, cinestésicas e proprioceptivas são conhecimento. Perceber não é elaborar sensações e passá-las para uma mente, uma consciência, ou um ego que as organiza, um id que as esquece ou um superego que as relaciona. Perceber é conhecer. A conceituação gestaltista de isomorfismo é que fundamenta nosso trabalho. Só nos é possível afirmar que percepção é conhecimento, por entender que à toda gestalt psicológica corresponde uma outra orgânica, neurofisiológica e que isto é estrutural enquanto relação figura/fundo. As idéias de mente, de consciência, enfim, de um poder central que organiza, relaciona e conscientiza os dados relacionais, é totalmente elementarista, é uma pre-existência arbitrária. Não existe consciência, nem mente, nem existe o ego, o superego e o id. O que existe é possibilidade de relacionamento e uma estrutura orgânica, neurofisiológica, comunicadores químicos (neuropeptídios). Existe, portanto, conhecimento tactil, visual, olfativo, gustativo, auditivo, proprioceptivo, cinestésico, cenestésico e estereoceptivo. Minha língua escolhe, meu corpo sabe, meu nariz decide, meus ouvidos me orientam, minha pele me estabiliza. A percepção estrutura posicionamentos, posicionamentos estes comumente chamados de ego, eu-mesmo." [pag. 33]

As questões de inteligência artificial, de realidade virtual, mudam, questionam cada vez mais os conceitos aristotélicos, associocionistas. Os circuitos de silício podem exercer funções idênticas aos dos circuitos neuronais; são estruturas que possibilitam relacionamentos, entretanto estão sempre limitadas aos seus constituintes pois são engenhos, artefatos, máquinas que podem fazer alguma coisa, que podem fazer muita coisa que o homem faz, mas não podem ser o homem.

O conceito de relação como estruturante comportamental humano é fundamental para o desenvolvimento dos estudos psicológicos. Enquanto persistirem visões pontualizadas, acúmulo de informações que depois são misturadas, catalogadas e usadas como senhas, identificadores de ordens complexas, não conseguiremos globalizar o humano. Ser no mundo é uma relação. Esta realidade, quando percebida, possibilita categorizar o homem, sua terrível, horrível, maravilhosa, bela condição de existir, de sobreviver, suas motivações e valores.

rodape livros <Home> <entrevistas> <artigos> <livros> <contato>