2003

Mãe Stella de Oxossi
Perfil de uma liderança religiosa

Vera Felicidade de Almeida Campos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003
[à venda nas livrarias físicas e on-line]

livro

Extrato

Capítulo 4
Aceitação da realidade e transformações  

O grande segredo de Mãe Stella é a aceitação da realidade. Ela aceitou a realidade de ser discriminada, ser oprimida, ver sua religião marginalizada. Essa aceitação capacitou-a para enfrentar e mudar a realidade.

Quando se está preso à idéia de que toda mudança decorre de luta, revolta e desadaptação, responsáveis pela transformação social, não se consegue imaginar a aceitação como uma ação antitética. Só existe antítese se houver um ponto de encontro. O ponto de encontro das contradições é a própria antítese, isto é, a configuração do impasse e da impossibilidade. No contexto das relações humanas, a percepção desse ponto de encontro, das contradições, permite aceitar o que ocorre, independentemente de padrões valorativos, necessidades de sobrevivência ou desejo de mudança.

Negar uma realidade com o objetivo de criar outra é estabelecer vias paralelas que não configuram antíteses. Não há encontro nem integração das contradições. A revolta e a não aceitação estruturam o desejo, a necessidade de mudar e de não sofrer mais. Se há negação do fenômeno é impossível o encontro, e portanto a contradição. A negação do limite de uma dada situação estabelece a existência de paralelas que criam dualismos, responsáveis por divisões e fragmentações tanto no indivíduo quanto em suas relações com os outros.

Exemplo disso é a percepção de que o patrão que explora é o mesmo que alimenta, de que aquele que oprime também apoia. A vivência dessa contradição cria sentimento de revolta, medo, culpa, angústia e resistência. Ao mesmo tempo que enseja luta, oportunismo e despersonalização, quebrando a individualidade e impedindo a mudança. A transformação surge apenas quando se percebe, por exemplo, que apoio e opressão são dois aspectos do mesmo processo. A percepção do limite estrutura as antíteses responsáveis por sínteses. A liberdade e a consequente quebra das barganhas abrem novos caminhos.

As estruturas sociais e econômicas - a cultura, enfim - frequentemente deixam o ser humano aprisionado a padrões que devem ser seguidos ou evitados. Ele quer e precisa sobreviver, e a sobrevivência é uma necessidade que, quando transformada em possibilidade, despersonaliza e exila a liberdade de existir. Uma das grandes questões humanas é como existir fora dos padrões sociais e econômicos e, ao mesmo tempo, estar neles e deles depender. Quanto maior for essa contradição, maior também será a possibilidade de se perceber e se descobrir como ser humano. Tal descoberta é libertadora, quebra as ordens contingnetes e produz antíteses.

Quando o negro viu - no contexto opressor em que vivia e que o constituia como oprimido - que não era apenas um escravo, uma mercadoria, ele conseguiu polarizar as contradições e cirar sínteses: os quilombos, por exemplo. Pôde transformar mágoas, raivas e revoltas em liberdade. Essa mudança foi possível pela aceitação de que era tratado como coisa e por saber que era um ser humano com inúmeras possibilidades de existir.

Aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela intagração do limite. Frequentemente a aceitação é confundida com conformismo, submissão àquilo que oprime, frustra e agride. Mas a integração do limite é o que ocorre quando vivenciamos o presente, quando, sem medo nem esperança, nos relacionamos com a realidade. O medo é a avaliação do que acontece em função de referenciais outros que não os do momento. São os a priori, os traumas, as certezas já assumidas que carregamos como filtros responsáveis por novas categorizações, preconceitos, estigmas, culpas, inferioridades e vivências já acontecidas e cristalizadas. Esperanças constitutem anseios, vontades e desejos contextualizados no futuro. A questão da temporalidade é complexa na filosofia, na psicologia e na física, mas em certo sentido é simples quando relacionada com vivência e percepção.

Na década de 1940, ser mulher, negra e de candombé era o estigma dos estigmas. Aceitar isso era admitir a realidade e seus limites. Através do processo de aceitação dessa circunstância foi possível para Mãe Stella transformação. Havia um elemento de transcendência que era a luz orientadora: a fé. A fé no seu orixá e nos desígnios de seu caminho fez de Mãe Stella de Oxóssi uma ialorixá, a mãe dona do orixá, que cuida dele, organiza, decide o que ele quer, sabe o que ele gosta de comer. Ela é a guardiã, a zeladora, como dizem alguns. a finalização de um processo que estabelece o início de outro é o eterno devir. As transformações se impõem, e ninguém conhece isso melhor do que uma iá. Essa evolução cria estabilidade, dá apoio, estabelece princípios e limites.

Mãe Stella não tinha ambições, não almejava vencer na vida, não buscava ser ialorixá. Seguia o que tinha que seguir e, assim, construía referenciais de transformação. Ela se individualizou, sabe quem é e espontaneamente participa dos processos que desencadeia e estrutura. Não tem mágoas nem rancores, assiste alegre a tudo o que mudou, mas sabe que muita coisa ainda deve ser alterada. Mãe Stella separa o joio do trigo, mas está atenta para o fato de que tudo é planta. Todos somos humanos - esta é a grande lição que diariamente ela lembra e ensina.

Habilidosa, acostumada a lidar com contradições e sempre atingindo o ponto de equilíbrio - ela é uma ialorixá -, Mãe Stella transformou-se em símbolo da luta pela democratização cultural, pela valorização do ser humano, pelo reconhecimento da religião africana tradicional. Embora atuando em uma pequena comunidade, seu trabalho tem alcance maior. A discriminação de negros, pobres, mulheres e dos socialmente marginalizados é hoje a mesma que durante muito tempo marcou o candombé. Ao conquistar voz e espaço, Mãe Stella abriu perspectivas para inúmeras pessoas e comunidades antes desdenhadas. Ela sabe o que é não ter direitos, ser discriminada, desconsiderada. Lutou e venceu. Definiu posições, afirmando e negando. Colocou as coisas no seu devido lugar, fez na comunidade o que fazia junto aos orixás. É fiel cumpridora de obrigações, intransigente, nunca cede ao mais fácil.

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