2004

A Realidade da Ilusão - A Ilusão da Realidade

Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Relume-Dumará, Rio de Janeiro, 2004

livro

Extrato

Introdução

Este livro traz novos desdobramentos decorrentes de nossa conceituação da que vida psicológica é vida perceptiva. Conseguir responder à questão do que é o real e do que é a ilusão, sem dualismos, foi importante, fértil para o trabalho psicoterápico, permitindo inclusive abordar a loucura através de conceitos relacionais, perceptivos.

O empirismo continua a influenciar a conceituação de realidade. Real, nessa visão, é o denso, o que pode ser tocado. Qualquer coisa que fuja dessa característica obriga a novas classificações, como a de virtual, por exemplo. Não precisamos falar de realidade virtual, desde que real é tudo que é percebido. Perceber não significa elaborar sensações, perceber é o conhecimento que surge da relação que se estabelece com o outro, com o mundo e consigo mesmo.

A família, a escola, o trabalho, a religião e a ideologia, consideradas como mediadores alienantes, permitem revitalizar os questionamentos acerca do que é o autêntico, o estruturante para o ser humano, permitindo também destruir uma série de estereótipos: explicar o "emocional" e o "racional", o comportamento feminino e o masculino como resultado da preponderância de um dos hemisférios cerebrais, por exemplo. Essas diferenças podem ser entendidas como situações estruturadas pelos sistemas de avaliação (mediadores).

Como seria um agrupamento, uma comunidade, uma sociedade sem submissão, sem regras criadoras de não-aceitações, de medos, de metas? É possível um ser humano vivenciar principalmente o presente contextualizado no presente? Seria esse o desejo dos hippies nos anos sessenta? É o sonho da sociedade sem Estado?

A percepção do percebido - o significado, presente não contextualizado no presente - é o que permite estabelecer a comunicação humana, apesar das parcializações e distorções perceptivas criadas. Entender como ele - o significado - é estruturado esclarece muitas questões.

Dedicação à espiritualidade, meditação, entendidas como soluções para a massificação e o estresse, são mitos, não resolvem a desumanização, às vezes até a escondem.

Fuga através das drogas é mais um aspecto alienante, resultante de não se deter no percebido, na realidade. A não-integração de limites obriga a estabelecer drenos, pontos de deslocamentos.

A realidade da ilusão, a ilusão da realidade são vivenciadas pelo homem. O real e o ilusório sempre interessaram aos filósofos, aos cientistas, a todos. Para as pessoas comuns isso sempre é pensado, em última análise, como verdade e mentira. A verdade e a mentira interessaram também a Nietzsche. Ele escreveu sobre elas em seus livros e especialmente em um livro sobre verdades e mentiras, onde ele diz: "as verdades são ilusões, metáforas que se tornaram gastas e sem força, moedas que perderam seu valor de troca e já não são mais agora consideradas moedas, mas sim metal".

Não querer se enganar, não querer ser enganado às vezes estabelece medo, desconfiança responsável pelo relacionamento realizado através desses a priori, sempre se querendo saber o que é real, o que é ilusão.

Descartes, Pascal, Wittgenstein, todos se debatiam com essas questões: realidade, ilusão, imaginação, sonho, conhecimento, reconhecimento. A percepção, seus processos e contextos permitem resolvê-las. Neste livro fica claro que o estruturante básico do humano é se aceitar, não precisar viver apoiado na aceitação dos outros, nas imagens institucionalmente aceitas e nos sistemas mediadores que as estabelecem como realidade ou como ilusão. O questionamento psicoterápico é a dinamização dos posicionamentos responsáveis por ilusão, pela não-percepção.

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