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A Tarde
Segunda-feira, 13 de dezembro de 1999

- reportaqgem: Rosane Santana -

Lançamento do livro Desespero e Maldade

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A psicóloga gestaltista Vera Felicidade, 57 anos, lança hoje, às 18 horas, no Theatro XVIII, Pelourinho, o seu sexto livro, Desespero e Maldade, dando continuidade a sua obra conceitual em Psicologia, iniciada há 30 anos. Nele, a autora fala sobre a violência, o desespero e a ética e afirma que "a maldade não é obra de Deus nem do Diabo, nem é mal-estar da civilização comandada peloThanatus". A seguir, entrevista com a psicóloga.

P - A senhora construiu, ao longo dos anos, uma obra conceitual em Psicologia, que se caracterizou pela quebra de idéias estabelecidas, como o inconsciente, abrindo novas perspectivas no campo do conhecimento, da epistemologia. O que há de novo neste seu sexto livro?

R - No Desespero e Maldade, enfoco os estruturantes perceptivos, a relação Figura-Fundo das próprias percepções. Quando estabeleci a diferença entre conhecer e categorizar, percebi que, além de não existir inconsciente, também não existe mente, nem consciência. Agora, posso dizer que vida psicológica é vida perceptiva.

P - A senhora está dizendo que, além de não existir inconsciente, também não existe mente, nem consciência?

R - A questão do inconsciente já expliquei há mais ou menos 30 anos atrás, em meu livro Psicoterapia Gestaltista - Conceituações, especificamente no capítulo O Mito do Inconsciente, que está na minha homepage. Agora, pra entender a questão da não-existência da mente e da consciência, vale considerar algumas coisas: no século XIX dominava a visão causalista, associacionista e determinista em toda a Ciência. O processo do conhecimento era explicado como resultante da elaboração dos dados sensoriais. Essa elaboração, essa organização era feita pela consciência, pela mente. Explicava-se o fenômeno através do epifenômeno. Acontece que a organização é intrínseca ao percebido. O mundo está aí, nós estamos nele. É uma Gestalt, uma coisa só, e não uma soma. Uma das implicações deste conceito é que podemos dizer minha língua decide, meu nariz escolhe, minha pele cogita. O comportamento vai depender destas relações perceptivas.

P - Quais são as implicações dessa abordagem, como fazer psicoterapia sem mente?

R - Pense em um viciado: comida, tóxicos, remédios, satisfação, por exemplo. Tudo pode ter começado por uma não-aceitação do próprio corpo. Destacado por esse processo, o corpo passa a ser o outro. Essa divisão, estrutura o auto-referenciamento, quer dizer, além do próprio corpo, existem apenas os próprios critérios. Exilado o outro, criado o abismo, existe apenas o desejo de construir situações, de preencher o que nos falta. O vício, a droga, a comida, a dependência afetiva são sistemas de ampliação, meios desesperados de conseguir o que se quer. Quando, em psicoterapia, o indivíduo começa a perceber que o outro é ele, ele percebe o vazio, o isolamento em que se encontra. Ele aceita isso e muda, ou ele utiliza isso para justificar seus incômodos e propósitos. Tudo que poderia ser enfocado como resíduo, trauma inconsciente responsável pela autodestruição, é visto como posicionamento perceptivo responsável pelo estar de costas para o mundo, por estar de olhos fechados, as mãos seguras nos próprios braços, ouvidos tamponados, nariz embalsamado pelo éter etc. Para a psicoterapia gestaltista é fundamental configurar o que é percepção, pois sabemos que quando muda a percepção muda o comportamento. Às vezes, o drogado quer apenas não ter insônia, não lembrar da oportunidade perdida quando não conseguiu vencer a competição esportiva.

P - Em Desespero e Maldade, a senhora aborda a questão da violência na sociedade contemporânea?

R - Para sobreviver é preciso lutar, se esforçar para conseguir vencer. A violência se impõe no nível de sobrevivência. Como homens, temos possibilidades de transcender limites. Para isso, temos de integrá-los a fim de transformá-los. Este meu último livro é sobre isso, sobre a violência, o desespero e a ética. Algumas frases, literárias é verdade, foram pregnantes para mim. Bataille dizia: "Diante da necessidade de ação, impõe-se a honestidade de Franz Kafka, que não se concedia direito algum"; Dostoievski: "A lógica sempre comporta o tédio"; e Baudelaire: "O tédio é o que te torna cruel". Tudo isso foi por mim percebido no contexto da conceituação de loucura elaborado por Sócrates: "Quando uma pessoa ignora a si mesma, não se conhece, é a loucura". É fundamental que o ser humano se perceba, não se auto-referencie. Só assim, ele pode desenvolver suas possibilidades humanas transcendendo as contingências do sobreviver.

P - O que é a maldade?

R - Não é obra de Deus nem do Diabo, nem é mal-estar da civilização comandada pelo Thanatus. Maldade é o que se consegue quando os impasses não são enfrentados. Criam-se deslocamentos. O limite não-aceito é transformado em impasse, pois é percebido no contexto dos desejos, das metas, dos resultados. Percebe-se a falta estruturante do desejo, busca-se realizá-lo, não importa como.

P - Mas essa não é uma visão nietzschiana? A senhora quer super-homens?

R - O trágico, o super-humano é exatamente a não-aceitação do limite. Tudo sempre depende do contexto estruturante. Por exemplo, tragédia na Grécia era a palavra que designava os rituais dionisíacos dos cânticos e sacrifícios dos trágos (bode em grego). Os bodes eram sacrificados aos sons de cânticos. No contexto atual, quando se fala em tragédia, sequer lembramos dos bodes...( pausa). Quanto mais nos humanizamos, mais percebemos o outro. A ética é construída numa dimensão cultural. Porém, é na transcendência das necessidades biológicas, das formalizações culturais, que se inicia a estruturação do nível existencial. Nem sempre o politicamente correto é corretamente humano. É absurdo proibir e impedir, embora, algumas vezes, impedimentos e proibições sejam exatamente os responsáveis por transcendências. São antíteses que podem estruturar mudança. O importante é perceber a realidade, aceitar os limites, e ser-no-mundo-com-os-outros.

Trechos

"Os gestaltistas clássicos, principalmente Kurt Koffka, se preocupavam em saber: 'por que se vêem as coisas como se vêem?' Uma das implicações diretas disto era que o que comumente se percebe, o que o senso comum vê como existindo não é a percepção do existente, é o que Koffka (1929) chamava de erro da experiência... Continuando a conceituação gestaltista, agora no campo psicoterápico, sempre quis saber, por que as pessoas, os seres humanos se comportam como se comportam? A resposta a esta pergunta foi dada de uma maneira obscura pela Psicologia..." "O encontro com o outro, o amor, a dedicação, é o que ultrapassa a imanência orgânica, é o que possibilita ao humano a transcendência, o se deter". "Toda vez que o desejo é ameaçado surge a maldade, como forma, como poder viabilizador do desejo. Por meio da maldade corta-se o obstáculo que impede a realização do desejo. Neste sentido, a maldade é um instrumento de realização, de bem-estar, de prazer".

Quem é

Vera Felicidade de Almeida Campos é psicoterapeuta gestaltista. É considerada uma grande teórica em Psicologia. A síntese de sua obra, exposta em seis livros, pode ser encontrada em sua homepage: http://www.verafelicidade.com.br Recentemente, foi criada no Departamento de Psicologia da UFBA a disciplina "A Psicoterapia Gestaltista de Vera Felicidade".

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