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A TARDE
Sábado, 06 de Novembro de 2004

Nostalgia de um sujeito perdido

- por Vera Felicidade de Almeida Campos -

Sempre chega o dia, o momento em que o ser humano se descobre sozinho, se descobre acompanhado, se percebe como alguém que tem diante de si um infinito de possibilidades, de compromissos, de sucessos, de realizações, de medos, angustias e alegrias. Essas coisas surgem organizadas, desorganizadas, rápidas, lentas, embaralhadas, nítidas.

Este estar diante de tudo isso transforma o ser humano em parte de um processo, tanto quanto configura um dentro, um fora, um objetivo, um subjetivo, em resumo, um eu e um outro, um aqui e um ali. Delimitar estes lados do processo cria divisões: corpo-mente, interior-exterior, passado-presente. Polêmicas e métodos são criados, surgem classificações para ver se as divisões são entendidas e sempre são perdidos de vista o processo, a relação. Goethe dizia ser a natureza miolo e casca, referindo-se à inexistência de um dentro e um fora independentes. Por que é difícil globalizar? Por que temos de dividir para entender?

Uma das características da era moderna, do recém terminado século XX, foi a ênfase dada ao que era considerado como subjetivo. Essa importância decorria da necessidade de reagir ao determinismo classificatório gerado pelo século XIX, onde tudo era explicado e representado por leis imutáveis, sem deixar lugar para a liberdade, para o livre-arbítrio.

Desde Hegel que o conceito de sujeito, de subjetivo, se firmou nas discussões e polêmicas acerca do humano, sua história, seu mundo. O subjetivo passou a ser uma questão, tanto quanto um receptáculo de muitas ideias e conclusões. A identificação do subjetivo como sede, como estrutura do libre-arbítrio, encantou filósofos, cientistas e religiosos. Era a escapada do humano. Era a descoberta de que nem tudo poderia ser classificado e determinado; havia um papel do indivíduo que só a ele cabia desempenhar, que só ele conhecia. Eram as diferenças individuais afirmadas; as idiossincrasias estavam delineadas.

Este era o início das ideias, do pensamento do século XX. A psicanálise, o marxismo e o existencialismo são representantes importantes deste momento, na trajetória do pensamento. Quando Marx salientava o determinismo econômico, a luta de classes gerada pela detenção da propriedade privada para explicar o comportamento humano, quando Freud falava do inconsciente como o responsável pela motivação e comportamento, e Sartre mostrava o engano das ideologias, das escolhas sempre ditadas por compromisso e alienação, eles decretavam o que acontecia ao sujeto, agiam como pensadores do século XIX, entretanto, já havia alguma brecha, alguma luz, a antítese se fazia, havia possibilidade de mudança, havia perspectiva de recuperação do sujeito quase esmagado pelas peressões alienadoras, pois eram indicadas saídas, ações responsáveis por mudança.

REDUCIONISMO - O que estamos construindo com essas heranças teóricas? Como entendemos, conceituamos e nos relacionamos com o sujeito, com o subjetivo?

Desesperados pelo não encontro de respostas, recuamos às categorias deterministas e buscamos sinonímias redutoras. Entender as variáveis sociais, culturais e psicológicas como resultantes de processos biológicos é, atualmente, uma forte tendência.

Nessa perspectiva, a questão subjetiva passa a ser entendida como manifestação, marca genética. Falar é resultante de uma estrutura biológica, genética. Salvo algumas anomalias orgánicas, todo ser humano fala - alguns português, outros mandarim, outros japonês, por exemplo. Mas a aprendizagem da língua depende fundamentalmente da atmosfera cultural vivenciada. O cérebro é uma parte do corpo, do organismo. Afirmar que ele é a mente, e que mente é corpo, logo tudo é biológico, cria um reducionismo mantido por um discurso útil apenas para as industrias de remédios psicotrópicos.

É oportuno citar: "No entanto, à força de acreditar no poder de suas poções, a psicofarmacologia acabou perdendo parte de seu prestígio, a despeito de sua impressionante eficácia. Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação, ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso, através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que, quanto mais se promete o fim do sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos."

Na visão biológico-reducionista, a baixa de serotonina é um dos fatores determinantes para explicar a depressão. Este reducionismo biológico cancela, elimina a subjetividade, o livre-arbítrio. Já não existem saídas para os homens, nada pode ser mudado, salvo suas peças de manutenção, necessárias à continuidade de seus compromissos, de sua sobrevivência. Tratados e pensados como máquinas, a única coisa a ser valorizada é o poder e a "tecnologia de ponta" . Se existe o poder, se existe a força, não é necessária a motivação

CULTO AO CORPO - Em menos de 60 anos, a Declaração dos Direitos Humanos (1948) foi abolida. No âmbito mundial, a recente guerra Estados Unidos versus Iraque é ilustrativa. No âmbito nacional, a violência nas ruas, a rede organizada do crime demonstram isso. E nós, nosso eu, nossa família, nosso dia-a-dia, como somos afetados por esta ideologia biológico-reducionista?

Nos estados modernos às redes institucionais e sociais se opõem redes do crime, anti-institucionais e anti-sociais. Existe uma sociedade organizada, existe um crime organizado, são paralelas, pares de opostos. O que preenche este vácuo, este abismo gerado pelas oposições paralelas, é a violência criada pelo uso da força, pelo uso do poder como forma de aniquilação do oposto, do antagônicol A família explode, a velhice é o destroço, o impedimento; vale o novo, o modelado, aparecem as drogas redentoras, as pílulas curadoras.

O reducionismo biológico repercute e surge em outro contexto sob a forma do culto ao corpo. É o corpo malhado, o corpo recuperado, o corpo das plásticas rejuvenescedoras. Silicone, cirurgias plásticas, implantes; o homem pode se fazer, pode se criar. É um artefato de si mesmo. É um momento perigoso: o humano, a criatura, assume a forma de criador. Podemos nos criar. Antes isto era feito através das roupas de grife; muito antes, na era feudal, pelo título de nobreza comprado; agora é o silicone, o botox, breve serão os chips mini enciclopédias arquivadas - responsáveis por performances verbais.

O sujeito foi destruído. Já não sei se escolho ou se é o meu cérebro que o faz, ou se é a minha dose de serotonina, por exemplo, que decide. A destruição do sujeito possibilita a estrutura do que podemos chamar de anti-sujeito, de seu contrário, seu corolário. Temos dependentes pessoas que preferem se entregar a sedações químicas (psicotrópicos, cocaína etc) a enfrentar seus sofrimentos psíquicos e suas não aceitações. É a procura do mágico, a espera do milagre. É sempre o não enfrentar, não se relacionar com os problemas não integrar os limites do existir.

Esse anti-sujeito, criado pela negação do sujeito, é nutrido pelos restos humanos destruídos. É um processo muito esvaziador, violentador. Seu contexto produtor é o não pensar, o não se deter, o não parar de seguir a linha que foi traçada para que se apoie e se sinta firme, por isso as adaptações rigidamente mantidas, responsáveis pelas manutenções impeditivas de quaisquer mudanças ou transformações.

A não saída possibilitada pelo atual discurso biológico é desumanizadora. Sem o sujeito, restam as drogas, o que satisfaz e completa o nosso vício, o nosso hábito ou, como diz Alain Ehrenberg: "O drogado é hoje a figura simbólica empregada para definir as feições do anti-sujeito. Antigamente era o louco que ocupava esse lugar. Se a depressão é a história de um sujeito inencontrável, a drogadição é a nostalgia de um sujeito perdido."

A modificação de todo esse reducionismo biológico será feita quando se perceber que o sujeito e o objeto, que o objetivo e o subjetivo são pólos de uma unidade: ser-no-mundo. Não há objetivo, nem subjetivo, enquanto tais, são aspectos relacionais configurados pelo outro, pelo mundo, por si mesmo. A recuperação do humano, "do sujeito" será quando o relacional for percebido, for considerado.

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Vera Felicidade de Almeida Campos é psicoterapeuta gestaltista, autora de diversos livros, tendo recentemente lançado A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, pela Editora Relume-Dumará

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