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Publicado no Boletim do SBEM, janeiro/março 2002, pag.47-48


Vera Felicidade de Almeida Campos

 

"Mais do que nunca precisamos de uma política, uma ação contra as drogas", dizem pais, mestres e políticos.

As políticas de combate às drogas não têm salientado dois fatores fundamentais para o uso das dorgas: o prazer/alívio que ela proporciona e a transgressão que ela constitui.

Nos últimos tempos o drogado, consensualmente, está sendo definido como o dependente químico. Neste sentido quase tudo pode ser entendido como droga, dos remédios ao saudável café-com-leite matinal.

Toda dependência química é psicologicamente vivenciada? É percebida? A falta de cafeína provoca, geralmente, dor de cabeça, alguma tontura que nem sempre são percebidas, correlacionadas como sintomas gerados pela ausência de cafeína. Dependentes de cocaína percebem as próprias crises de abstinência com todo seu caudal de sintomas, como resultante da falta da cocaína, da droga. Outros dependentes químicos, os da insulina por exemplo, sentem a falta, têm crise de abstinência às vezes através de um único sinal: a morte.

As substâncias químicas são metabolizadas de diversas formas pelo nosso organismo. Este processo nem sempre é por nós acompanhado, percebido. O abismo entre o que ocorre no organismo e sua repercussão vivencial é estabelecida pelo que se vai caracterizar, resumidamente em bem-estar/mal-estar. É a dependência química, psicológica, perceptivamente contextuada.

Em nossa sociedade pragmática, tudo que não possibilita um aumento da produtividade econômica é considerado lesivo ao humano. O homem existe para lutar, vencer, trabalhar, procriar. Passar o tempo, subtraíndo-se às lides cotidianas gera atritos, gera antíteses, estabelece cobranças. Este rompimento de padrões, de paradigmas é a transgressão. O sistema representado pelos hábitos, pela repetição de comportamentos é o universo de adaptação, é a parede que isola o transgressor do outro, da família que o critica por exemplo. Quando o sistema é rompido, surge o mundo que foi negado, o mundo frustrante, a realidade não aceita. Vem o desespero, a crise de abstinência.

Após esse enfoque psicológico sobre abstinência, vejamos o que ocorre neurologicamente. O cérebro tem um sistema motivacional: "Hoje já se sabe que as principais substâncias de abuso viciam através de sua ação no sistema motivacional do cérebro. Esse sistema inclui o núcleo acumbente, uma estrutura cerebral antiga que recompensa comportamentos importantes para a vida do indivíduo, fazendo com que ele volte a buscar o que proporcionou aquela sensação boa - de saciedade, realização ou êxito. Drogas como a cocaína ativam este núcleo, fazendo com que a pessoa volte a querer usá-las. Mas também deixam o núcleo acostumado, como que 'anestesiado', de modo que da próxima vez é necessário usar uma dose maior da droga para atingir o efeito original. Daí a bola-de-neve que é o vício" - 1

São infinitas, frequentes - logo normais - as possibilidades de estabelecermos hábitos, vícios.

Para ter acesso à cocaína, à maconha, ao alcool, ao crack, à heroína, burla-se leis, transgride-se regras, invade-se áreas criminosas. Esse fazer qualquer coisa para ter o prazer, para ter o alívio é um grande problema. Para entender o drogado é necessário compreender essa quebra de padrão, essa inconsequência. Outro aspecto importante é o menosprezo com a saúde. Entra-se em um processo de intoxicação, geralmente apenas pelo prazer, pelo alívio, para quebrar o tédio.

O compulsivo é o viciado, é o drogado tanto quanto o drogado é o compulsivo. "A atitude compulsiva, de ser obrigado a, é a maneira encoantrada pelo humano para manter suas ligações, seus vínculos com o mundo, com a realidade, com os outros. A repetição através de constante verificação, garante o controle de atingir o que se deseja e necessita. A continuidade dessa vivência compulsiva, repetitiva estabelece os tiques, os vícios. A compulsão é uma forma de sublinhar, marcar vivências. Esses riscos, essas marcas passam a ser os apoios, referências, as barras de proteção nas quais nos seguramso" - 2

O drogado é um "voluntarioso"; parodiando Nietzsche é o super-homem das trevas, é a vontade de potência às avessas, para baixo.

A não aceitação, a insegurança, a dependência e o núcleo acumbente nos endereçam para o vício, basta pensar no vício da comida, nos obesos, ler sobre os pedófilos, os sexolátras. Se tudo pode ser uma droga, a solução não é proibir a droga, a solução é estruturar autonomia a fim de estabelecer os próprios limites em lugar de sofrer os impactos e esvaziamentos dos limites estabelecidos. Que fazer? Como estabelecer "próprios limites" com o filho adolescente, com o marido alcoolista? Entendendo que se o problemas deles nos afeta, o problema é nosso e assim encará-lo.

Como educadores e "curadores" se considerarmos droga como sinônimo de remédio, melhora, alívio, cura precisamos verificar seus efeitos colaterais; se pensarmos nas drogas como fonte de prazer teremos que humanizar, teremos que arrancar o homem do vazio das gratificações, das satisfações; enfocando a droga como índice de transgressão, necessário verificarmos o que foi transgredido.

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1 O Cérebro Nosso de Cada Dia - Descobertas da Neurociência sobre a Vida Cotidiana - Suzana Herculano-Houzel, Vieira & Lent Casa Editorial Ltda, Rio de Janeiro, 2002, pag.107

2 A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu - Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002, pag.77

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