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.Impactos e descobertas ou sobre marcas,
trajetórias e resíduos de nosso viver

 

Publicado no Boletim do SBEM, ANO 5, nº 17, pag. 54 a 55


Vera Felicidade de Almeida Campos*

 

Sempre chega o dia, o momento em que o ser humano se descobre sozinho, se descobre acompanhado, se percebe como alguém que tem diante de si um infinito de possibilidades, de compromissos, de sucessos, de realizações, de medos, angústias e alegrias. Estas coisas surgem organizadas, desorganizadas, rápidas, lentas, embaralhadas, nítidas. Este estar diante de tudo isso transforma o ser humano em parte de um processo tanto quanto configura um dentro, um fora, um objetivo, um subjetivo, resumindo um eu e um outro, um aqui e um alí. Delimitar estes lados do processo cria divisões: corpo-mente, interior-exterior, passado-presente. Polêmicas e métodos são criados, surgem classificações para ver se as divisões são entendidas e sempre são perdidos de vista o processo, a relação. Goethe dizia ser a natureza miolo e casca, referindo-se à inexistência de um dentro e um fora independentes. Por que é difícil globalizar? Por que temos de dividir para entender?

Uma das características da era moderna, do recém terminado sec. XX foi a ênfase dada ao que era considerado como subjetivo. Esta importância decorria da necessidade de reagir ao determinismo classificatório gerado pelo sec. XIX, onde tudo era explicado e representado por leis imutáveis, sem deixar lugar para a liberdade, para o livre-arbítrio.

Desde Hegel que o conceito de sujeito, de subjetivo, se firmou nas discussões e polêmicas acerca do humano, sua história, seu mundo. O subjetivo passou a ser uma questão, tanto quanto um receptáculo de muitas idéias e conclusões. A identificação do subjetivo como sede, como estrutura do livre-arbítrio, encantou filósofos, cientistas e religiosos. Era a escapada do humano. Era a descoberta de que nem tudo podia ser classificado, determinado; havia um papel do indivíduo que só a ele cabia desempenhar, que só ele conhecia. Eram as diferenças individuais afirmadas; as idiossincrasias estavam delineadas.

Este era o início das idéias, do pensamento no sec.XX. A psicanálise, o marxismo e o existencialismo são representantes importantes deste momento na trajetória do pensamento. Tanto o marxismo, quanto a psicanálise e consequentemente o existencialismo, foram gerados no seio do determinismo do sec.XIX. Quando Marx salientava o determinismo econômico, a luta de classes gerada pela detenção da propriedade privada para explicar o comportamento humano, quando Freud falava do inconsciente como o responsável pela motivação e comportamento e Sartre mostrava o engano das ideologias, das escolhas sempre ditadas por compromisso e alienação, eles decretavam o que acontecia ao sujeito, agiam como pensadores do sec.XIX, entretanto já havia alguma brecha, alguma luz, a antítese se fazia, havia possibilidade de mudança, havia perspectiva de recuperação do sujeito quase esmagado pelas pressões alienadoras, pois eram indicadas saídas, ações responsáveis por mudança. Marx propunha a militância, Freud, através da psicanálise, pregava buscar a verdade que a fala revelava e o existencialismo mostrava o engajamento como a maneira de quebrar as engrenagens. O sujeito, o livre-arbítrio podia ser recuperado ou já estava resgatado.

Hoje em dia, sec.XXI, o que estamos construindo com essas heranças teóricas? Como estamos entendendo, conceituando, nos relacionando com o sujeito, com o subjetivo?

Desesperados pelo não encontro de respostas, recuamos às categorias deterministas e buscamos sinonímias redutoras. Entender as variáveis sociais, culturais e psicológicas como resultantes de processos biológicos é atualmente uma forte tendência. Nesta perspectiva a questão subjetiva passa a ser entendida como manifestação, marca genética. Falar é resultante de uma estrutura biológica, genética. Salvo algumas anomalias orgânicas, todo ser humano fala, alguns português, outros mandarim, outros japonês por exemplo. Mas, aprendizagem da língua depende fundamentalmente da atmosfera cultural vivenciada. O cérebro é uma parte do corpo, do organismo. Afirmar que ele é a mente e que mente é corpo, logo tudo é biológico, cria um reducionismo mantido por um discurso útil apenas para as industrias de remédios psicotrópicos. É oportuno citar: "No entanto, à força de acreditar no poder de suas poções, a psicofarmacologia acabou perdendo parte de seu prestígio, a despeito de sua impressionante eficácia. Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso, através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que, quanto mais se promete o 'fim' do sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos." **

Na visão biológico-reducionista a baixa de serotonina é um dos fatores determinantes para explicar a depressão. Este reducionismo biológico cancela, elimina a subjetividade, o livre-arbítrio. Já não existem saídas para os homens, nada pode ser mudado, salvo suas peças de manutenção, necessárias à continuidade de seus compromissos, de sua sobrevivência. Tratados e pensados como máquinas a única coisa a ser valorizada é o poder, a "tecnologia de ponta". Se existe o poder, se existe a força, não é necessária a motivação.

Em menos de 60 anos a Declaração dos Direitos Humanos (1948) foi abolida. No âmbito mundial esta recente guerra Estados Unidos versus Iraque ilustra isso. No âmbito nacional a violência nas ruas, a rede organizada do crime demonstram isso. E nós? nosso eu? nossa família, nosso dia-a-dia, como somos afetados por esta ideologia biológico-reducionista?

Nos estados modernos, às redes institucionais e sociais se opõem redes do crime, anti-institucionais e anti-sociais. Existe uma sociedade organizada, existe um crime organizado, são paralelas, pares de opostos. O que preenche este vácuo, este abismo gerado pelas oposições paralelas é a violência criada pelo uso da força, pelo uso do poder como forma de aniquilação do oposto, do antagônico. A família explode, a velhice é o destroço, o impedimento; vale o novo, o modelado, aparecem as drogas redentoras, as pílulas curadoras.

O reducionismo biológico repercute e surge em outro contexto sob a forma do culto ao corpo. É o corpo malhado, o corpo recuperado, o corpo das plásticas rejuvenescedoras. Silicone, cirurgias plásticas, implantes, o homem pode se fazer, pode se criar. É um artefato de si mesmo. É um momento perigoso: o humano, a criatura assume a forma de criador. Podemos nos criar. Antes isto era feito através das roupas de grife, muito antes, na era feudal, pelo título de nobreza comprado; agora é o silicone, o botox, breve serão os chips - mini-enciclopédias arquivadas - responsáveis por performances verbais.

O sujeito foi destruido. Já não sei se escolho ou se é o meu cérebro que o faz, ou se é a minha dose de serotonina, por exemplo, que decide. A destruição do sujeito possibilita a estrutura do que podemos chamar de anti-sujeito, de seu contrário, seu corolário. Temos dependentes, pessoas que preferem se entregar a sedações químicas (psicotrópicos, cocaina etc) a enfrentar seus sofrimentos psíquicos e suas não aceitações. É a procura do mágico, a espera do milagre. É sempre o não enfrentar, não se relacionar com os problemas, não integrar os limites do existir. Este anti-sujeito, criado pela negação do sujeito, é nutrido pelos restos humanos destruidos. É um processo muito esvaziador, violentador. Seu contexto produtor é o não pensar, o não se deter, o não parar de seguir a linha que foi traçada para que se apoie e se sinta firme, porisso as adaptações rigidamente mantidas, responsáveis pelas manutenções impeditivas de quaisquer mudanças ou transformações.

A não saida possibilitada pelo atual discurso biológico é desumanizadora. Sem o sujeito, restam as drogas, o que satisfaz e completa o nosso vício, nosso hábito ou como diz Alain Ehrenberg: "O drogado é hoje a figura simbólica empregada para definir as feições do anti-sujeito. Antigamente, era o louco que ocupava esse lugar. Se a depressão é a história de um sujeito inencontrável, a drogadição é a nostalgia de um sujeito perdido." ***

A modificação de todo esse reducionismo biológico será feita quando se perceber que o sujeito e o objeto, que o objetivo e o subjetivo são polos de uma unidade: ser-no-mundo. Não há objetivo nem subjetivo enquanto tais, são aspectos relacionais configurados pelo outro, pelo mundo, por si mesmo. A recuperação do humano, "do sujeito" será feita quando o relacional for percebido, for considerado.

Cabe à psicologia a grande tarefa de não cair em determinismos, não ceder às explicações tautológicas e fáceis, não se deixar seduzir pelas remoções de sintomas. Cabe ao homem existir, existindo em relação, criando elos, laços, cultura e civilização, linguagem, epopéias, transformando sua imanência biológica, realizando suas possibilidades relacionais.

 

Referências bibliográficas:

** Por que psicanálise? Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000,
pag.22

*** Por que psicanálise? Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000,
pag.19

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* Vera Felicidade de Almeida Campos é psicoterapeuta gestaltista, autora de diversos livros, tendo recentemente lançado "A Questao do Ser, do Si Mesmo e do Eu" pela Editora Relume Dumará.

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